sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

entre o céu e o inferno




a minha mãe perguntou se eu vou para o céu ou para o inferno. acho que tudo vai depender de quem decide.
sinceramente eu mereço um inferno ameno ou um céu modesto: não seria justo eu fazer companhia à Zilda Arns, mas também não seria justo eu dividir as chamas com aqueles que jogaram a filha pela janela, ou com aquele que encheu uma criança de agulhas. muito menos com aqueles que desviam milhões do nosso imposto fazendo tanta gente não ter o básico.

claro que eu tenho meus pecados.
apesar de pecar mais em pensamento.

na verdade, meu crime torto é meu mundo particular.
o mundo vem abaixo e eu fico devaneando com Clarice Lispector, não faltando à aula de natação, tentando acreditar que a minha bunda vai ter dias mais sólidos, acompanhando a inacreditável novela das 8, me encantando com o livro do Saramago.

minha preocupação com a humanidade, não vai muito além de algumas pessoas que eu considero muito. (incluindo sempre os meus alunos)

cada vez eu acredito menos.
menos em tudo.
cada vez mais me habita a consciência da invenção ridícula de tudo isto que chamamos de sociedade.
mas, apesar dos pesares, eu brinco bem na sociedade: eu cumpro ordens que é uma beleza, chego sempre na hora, não fico no vermelho, não visito ninguém sem marcar hora.
claro que tem coisas que eu não consigo: usar salto alto só em ocasiões raras, eu ligo para a minha mãe na hora do almoço, eu tomo banho longos e repasso algumas fofocas...

muitas vezes eu acho a vida uma brincadeira divertida, outras tantas eu acho uma brincadeira caótica e sem graça.
como se nunca chegasse a minha vez de inventar as regras que eu cumpro tão bem.
então, eu não consigo deixar de fugir pelas frestas dos meus livros, músicas, ... o meu "infinito particular", como diria a Marisa Monte.

às vezes eu acho que eu só topo brincar com tanta seriedade porque eu realmente gosto muito de alguns e porque pra mim é mais importante chegar do que ter para onde ir. (apesar de me sentir mais partindo do que chegando)

uma vez alguém me disse que não existia pecadinho e pecadão. que todos eram tamanho único. (eu nunca acreditei em tamanho único, tamanho único é aquilo que não serve em ninguém)
claro que eu acho que existe o pecadinho e o pecadão.
aliás, eu acho que é esta distância imaginária que me salva.

mas, eu não me preocupo muito com o inferno e nem sonho muito com o céu.
acho apenas que a brincadeira continua.

e o meu Deus, sabe que cada que eu faço exatamente aquilo que eu posso.

(sempre gosto de ficar com a minha mãe, vai ver que é por saber que daqui um tempo brincaremos em locais diferentes. ela é daquelas que vai para o céu. eu sou daquelas que Deus vai ter que pensar... - ao menos eu espero que pense!)

2 comentários:

Monikir disse...

Alien, ta perfeito! muitas pessoas vão se ver lendo esse texto.
quem poderá saber quem vai pro inferno, né mesmo? e melhor é nem saber. mas sempre é tempo de pedir um lugarzinho mais fresquinho pra Deus. e vc com certeza vai conseguir! Divulgue mais o seu blog.
Abração!!!

Maris disse...

Olá querida!!!
A Monica tem razão deves divulgar mais teu Blog.O texto é sensacional, mas eu vou te confessar que enquanto eu lia fiquei pensando num ditado sórdido "As meninas boas vão para o céu e as más, para onde querem"
Um grande abraço, Maris....