sábado, 27 de dezembro de 2008

das minhas leituras


Ele prefere a suavidade do humor ao ridículo do amor, mas nada disso sabe ainda, pernas muito fracas para o peso da alma.

A minha liberdade é uma margem muita estreita, suficiente apenas para me deixar em pé.

Da obra O filho eterno de Cristovão Tezza, que o Sr. Noel me trouxe no Natal.

Nesta época difícil, nada melhor que um personagem humano para me habitar, como cantou o meu poeta eu não preciso de modelos, eu não preciso de heróis... Eu (também) preciso me achar e me perder nas pessoas, naquelas que ainda são gente.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

NÃO-MÃES - do blog da Leila Ferreia

O fato é que nós, não-mães, ainda somos vistas como mulheres à parte. As que não puderam ter filhos contam com a solidariedade das outras. Mas as que optaram por não tê-los são vistas como criaturas exóticas e imaturas, não raro egoístas. Em um mundo cheio de parquinhos, carrinhos, bichinhos, amiguinhos -esse vasto mundo no diminutivo-, quem não tem filhos se sente grande e desajeitada, alguém que não se encaixa. Talvez por isso algumas mulheres tenham comportamentos excêntricos para compensar a não-maternidade.

de fora e de dentro

a mãe dela que nos contou, que mesmo ele sendo de uma cidade distante eles não passam um dia sem se ver.
ela pediu licença do emprego, alugou a casa, colocou os filhos embaixo do braço e vai morar com ele.
uma comentou que não morre sem sentir de novo um homem apaixonado por ela.
a outra disse que não morre sem se apaixonar de novo, que a cegueira da loucura rejuvenesce.
as que falaram mal não se deram conta do quanto pode ser inveja ou pena de si mesmas.
eu ( a mais nova de todas) não disse nada. mas, fiquei pensando... no quanto seria interessante acreditar, ao menos de vez em quando. ao menos eu saberia o que dizer, o que fazer com as mãos e para onde olhar. não apenas dentro da roda, mas também dentro de mim mesma.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Programa de Natal

então, depois de uns (poucos) anos eu vou passar o natal com o meu pai e com a minha mãe.
de novo.
não há papai noel que supere as habilidades do meu pai.
não há anjo que consiga perdoar mais do que a minha mãe.
não há restaurante que se empenhe tanto quanto eles nas minhas preferência calóricas.
não há boteco algum que faça o dobro de comida para eu poder levar uma marmitinha pra casa.
não há casa alguma, a não ser a deles, na qual eu possa tirar o sapato embaixo da mesa durante a janta sem ninguém reparar no meu chulé.
não há casa alguma, a não ser a deles, onde as mulheres não reparam na minha falta de vontade de lavar a louça.

não há natal que supera a festa de estar entre os nossos.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

O que você gostaria de perder neste Natal?

PAPAI NOEL ÀS AVESSAS
por Leila Ferreira
http://www.nosmulheres.globolog.com.br/

Minha culpa, minha máxima culpa.
Quando propus que fizéssemos juntas uma lista do que gostaríamos de ganhar neste Natal, uma de vocês mandou uma sugestão que eu adorei: disse que não gostaria de ganhar nada - o que queria mesmo era perder cinco quilos.

Gostei tanto que deixei pra encerrar a coluna da Marie Claire com ela, mas na hora de redigir o texto acabei me confundindo e a sugestão ficou de fora. Por isso, vou propor agora que a gente faça uma lista inspirada nela.

O que você gostaria de perder neste Natal, amiga?

O que amaria descartar ou deixar pra trás? Do que gostaria de se ver livre?

Minha lista teria no mínimo os seguintes itens:
- Impaciência (a minha é infinita)
- Desorganização (perco documentos, contas, certidões, já “guardei”o lixo no armário de produtos de limpeza e só compro os produtos de limpeza que não preciso)- Preguiça de fazer ginástica (a energia que gasto inventando desculpas pra não malhar é que acaba queimando minhas calorias)- Fome incontrolável depois das 6 da tarde (basta o sol se esconder que eu começo a saquear a cozinha)
- Enjôo de viagem (como será a vida sem Dramin?)
- Ciúme (tem atraso de vida maior?)
- Implicância com quem fala alto no celular em lugares públicos (como implicar com 98% da população?)
- Intolerância a barulho de um modo geral (que sentido tem, num mundo onde o silêncio deixou de existir?)

Enfim, amigas, é só uma amostra do que eu gostaria de perder neste Natal. E vocês, gostariam que o Papai Noel levasse o quê pra Lapônia, com a promessa de deixar lá para sempre?

*** Pra mim, os 5 kgs tava de bom tamanho!
Ho ho ho ho!

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Então, é NATAL

O fim de ano me deixa pior que o Papai Noel.
Do nada ela me olha e diz: - Preciso comprar roupa, nada que eu tenho está na moda.
Do fundo da alma eu respondo: - Perde uns kgs que teu guarda-roupa INTEIRO entra na moda.
(Pior que nem é maldade, é experiência própria...)

Ho ho ho ho!

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

cartão de casamento

pra quem escreve, sempre sobra de tudo e mais um pouco: cartão, mensagem, agradecimento, correção, revisão, notícia, matéria, bilhete, ...

mas, desta vez foi inusitado: cartão para o segundo casamento de uma amiga recém separada.

lá fui eu, hohohoho:

com desejos de muiiitos brindes e comemorações, porque depois de tanta cueca lavada, só bebendo para recomeçar!

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

sentir-se vivo

depois da gente conversar sobre livros, filmes e idéias ele confessou que se sente vivo quando peida.
eu (que faço tanta merda) sou trancada que nem sei para fazer cocô.
mas, pra eu me sentir viva... preciso de umas pessoas como ele.
pessoas capazes de escutar a mesma trilha sonora, pessoas que conhecem os personagens e autores que me habitam, os filmes que me traduzem.

eu me sinto viva quando me aproximo, quando o mundo está ao meu alcance através de pessoas que me alcançam e se deixam alcançar.

Foucault

A ficção consiste não em fazer ver o invisível, mas em fazer ver até que ponto é invisível a invisibilidade do visível.

(Sim, a gente tem de ler mais de uma vez...)

(Sim, este homem me tira o sono e ilumina minhas dúvidas...)

das teorias

eu discuto amor, gosto, sabor e também teorias.
(cores eu não discuto, eu prefiro a busca do invisível)
porque nada é mais triste e sem graça do que uma certeza.
mas, a teoria que segue me deixou sem palavras (e olha que eu fujo sempre através delas... às vezes, eu acho que eu respiro nelas.)

assim, no portão da escola.
de repente.
uma mãe contando de uma lojinha que abriu.
eu, bem pobre, fui logo dizendo: mas ali as coisas são tão caras...
ela foi emendando: mas, caro ou barato a gente tem que gastar todo o dinheiro do marido de qualquer jeito!
eu olhei pra ela com aquele meu olhar de moeda de um centavo perdida.
ela continuou:
só arruma outra mulher marido que tem grana para bancar mais de uma.

eu me senti menos uma.
além de eu viver do suor do meu rosto (esta é do meu pai!), eu racho as contas (e - claro - a cabeça).

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

amém

às vezes, eu queria 3 vidas - ao mesmo tempo: uma pra ler, outra para escrever e mais uma para viver.

mas, hoje, eu queria mais uma vida - depois desta - porque eu vou morrer sem ver tudo: http://colunistas.ig.com.br/obutecodanet/2008/11/20/jovens-padres-do-vaticano-posam-para-o-calendario-2009/

(descobri o caminho do pecado lá no lampadaria - http://www.lampadaria.blogspot.com/)

domingo, 16 de novembro de 2008

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Por que um blog ?!?

Aqui é o lugar, onde a ilha que eu sou finalmente espera por um barco e não mais ergue muralhas.

dos comerciais

Descobri um livro lindo - que gostaria de ter escrito.
Não, não me deu uma inveja boa porque eu não acredito em inveja boa.
Meu deu aquele calorzinho por dentro, de saber que eu posso estar até mesmo nas palavras de quem eu nem conheço pessoalmente.
Foi aquela mágica de provar uma roupa que veste até alma, mesmo que quem pariu esta veste nem sonha as minhas (des)medidas.
(Aliás, isto tem acontecido também com os escritos das "desconhecidas" Ticcia, Mafalda Crescida, Belly e F. Reis...)

O livro em questão - que eu sempre perco o foco - é: "Mania de Explicação" da Adriana Falcão (sim, é um livro infantil... )

Uma partezinha do livro:
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer, mas acha que deveria querer outra coisa. (Como eu queria parar de achar o que eu deveria querer, não... ninguém imagina o quanto!)

Mais um pouquinho:
Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

fim de ano

sempre é uma bosta: o calor e o horário de verão terminam com o meu humor.

depois, é a hora de me despedir de mais uma turma.
é horrível. agora, eu já conheci a desgraça e reconheci a graça de cada criança.
agora, eles já perdoaram as minhas neuroses.
agora, a gente se reconhece pelo olhar.
somos cúmplices no quanto rimos e erramos para chegar até aqui.
não juntamos apenas letras e palavras, misturamos as nossas histórias.
eu sei o nome de cada avó, pai e mãe... e até dos cachorros das crianças, sei o que faz cada um deles viver ou morrer.
eles sabem como eu me sinto até pela roupa que eu uso, pela cor da minha caneta, pelo meu perfume, pela minha voz, pela minha letra...
somos um organismo vivo do qual eu serei abortada em menos de um mês.
(nem sempre eu gosto de recomeçar, às vezes eu queria poder continuar...)

Show A Mulher de Oslo com Vanessa Longoni

Acabo de chegar do show "A Mulher de Oslo" com Vanessa Longoni.
Assistiram ao show menos de 25 pessoas.
Ainda me constragem as pessoas da minha provínvia.
É, eu fico tensa e aproveito menos do que poderia.
Como se a falta de cada pessoa (que eu não sei quem deveria ser) me habitasse.

Minha mãe que me perdoe, mas eu acho que o caminho mais fácil a tudo que é sagrado é a música.
Depois, a imagem.
Só depois, a palavra.

Se eu tivesse escolha, em primeiro lugar eu gostaria de saber música, depois desenho, depois ser homem, depois ser bonita, depois ter grana, depois ter tempo...

Mas depois, é coisa pra depois.

domingo, 2 de novembro de 2008

finados

"...mas as pessoas da sala de jantar
são preocupadas em nascer e morrer ." (Caetano e Gil)

é, não fui ao cemitério.
não que eu não tenha mortos queridos.
(aliás, mais fácil ser querido morto do que vivo...)

juro que tenho um tio que eu nunca lembro se tá vivo ou morto.
(ele tá vivo)
(às vezes, eu preciso perguntar pra minha mãe, que nem estranha mais - tantas são as vezes que eu já perguntei.)
(é, ele também não colabora, sempre falando de doenças e das tantas vezes em que ele quase morreu.)

eu morro todos os dias.
pra acordar na hora.
pra chegar na hora.
pra manter o peso, pra perder peso, pra agüentar o peso de certas coisas.
escutando as mesmas coisas.
querendo acreditar.
engolindo fumaça.
adiando coisas.
contando dinheiro.

estes dias li que uma mulher apaixonada é uma mulher baleada.
eu, acredito que a falta de paixão também é uma forma de estar baleado.

que a vida - como disse clarice - é uma loucura que a MORTE faz.

que - como disse quintana - a gente nasce grávido da morte.
(e eu ando gestando a minha muito bem - obrigada)

o peso dos quilos

ia comprar a biografia do tim maia.
é, eu adoro biografias.
mas, a coisa pros gordos tá tão feia que na indicação de cada capítulo (no índice do livro) consta o peso dele - em TODOS os capítulo. pode?!?
começa nos 90 e termina nos 140.

a gente anda valendo cada quilo que a gente não pesa.
(e eu, chegando perto dos 70!)

o que faz uma vontade

meu desejo de que as férias cheguem logo é tão intenso que eu já comecei a fazer cartões de natal.
(isto que durante o período de férias eu estarei em curso...)

ho ho ho!

diretamente do Blog da Laura

"Minha solidão não tem nada a ver
com a presença ou ausência de pessoa.
Detesto quem me rouba a solidão,
sem em troca me oferecer
verdadeiramente companhia..."
Friedrich Nietzsche

diretamente do Não Discuto, por Ticcia

Será que entendes, amado meu, que habitei com meus medos os mais terríveis precipícios e que teu olhar me lança pontes que eu nunca soube que pudessem existir?

sábado, 1 de novembro de 2008

54 feira do livro de porto alegre

a feira continua linda.
a praça.
o cheiro da pipoca.
as pessoas se aglomerando em volta dos saldos.
eu reafirmando o quanto livro é caro - ou eu pobre -.
os vendedores nas bancas sabendo indicar, sabendo o que estão vendendo.
uns escritores pra lá e pra cá.
(menos o verissimo que eu sempre procuro e nunca encontro)
sacolas de livros.
todo mundo olhando com as mãos.
crianças penduradas e senhores apoiados... nos balaios, nos livros, nas famílias.
títulos que eu já li, títulos que eu quero, poemas que eu sei de cor.

eu fico imaginando quem compra "segundas-feiras felizes" ou "vaginas".
eu fico imaginando a tristeza de um escritor ao se achar encalhado num saldo.
eu fico imaginando a emoção de alguém que autografa.
eu fico imaginando se eu ganhasse um cheque em branco para ir à feira.

eu sigo comprando os livros que já li, simplesmente porque quero a história perto de mim.
eu sigo comprando clarice lispetor.
comprando pela capa, pela ilustração, porque li uma entrevista do autor.
compro porque é uma biografia e isto me basta.
passo a mão pela capa, sinto os relevos ... e peno por não poder levar tudo que eu quero.
me supero e compro (sem saber) um livro que já tenho em casa.

trago um livro infantil caro e lindo pra casa.
pra mim.
que não tenho filho, afilhada e nem cachorro.
porque eu sou a minha menina e às vezes ainda me dou a mão.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

sem saída

na hora do almoço, fiquei sabendo que os funcionários públicos do RS não podem mais fazer greve. (caso façam, terão o salário cortado.)

no fim do dia eu fui à feira.
pedi o preço da rapadura, pensei nas calorias... e comprei uma couve!
pedi o preço do vidro de melado, pensei nas calorias ... e comprei laranjas!

no momento, não sei o que é mais complicado: ser gorda ou ser gaúcha...

pior, só eu mesma: uma gaúcha gorda que luta com bravura contra o aspartame.
(talvez o aspartame fosse a minha solução, às vezes eu acho que só derretendo o cérebro para suportar certas coisas.)

remoto controle

no fim do ano passado, na minha lista de desejos para 2008, a única coisa que constava era vencer o vício do clight (suco de pacote dietético).
só consegui agora, quase final do ano.

fiquei pensando na minha lista de coisas pra fazer antes de morrer - que tá de matar!
se a coisa continuar neste ritmo, vou partir para uma lista de desejos para a próxima encarnação.

Diretamente do Mafalda Crescida

“Nem sempre vai ser assim.”( Retirado de uma história chinesa )

“As pessoas felizes não incomodam ninguém.”( Não sei quem inventou, mas é verdade verdadeira. )

“A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas triste pelo que há nela
De fragilidade e incerteza.”( Manuel Bandeira )

“Nunca diga nunca.”( Vi num filme, mas não sei quem escreveu. )

“É melhor se sofrer junto do que ser feliz sozinho.”( Vinícius de Moraes )

“É quando eu fico fraca que eu fico forte.”( S. Paulo )

“Hoje eu só quero que o dia termine bem.”( Daniel Carlomagno )

“O pior analfabeto é o analfabeto político.”( Bertold Bretch )

“Se o egoísmo tivesse corpo, ele seria homem.”( Desconheço o aut
or, mas aposto que era uma autora. )

“O destino é um gozador.”( Luís Fernando Veríssimo )

“A mentira é bonita.”( Mario Quintana )

“Sorria que seu rumo se alumia.”( Também desconheço o autor, mas funciona pra mim. )

“Sou minha mãe e minha filha, minha irmã, minha menina. Mas sou minha, só minha, e não de quem quiser.”( Renato Russo )

“Façam muitas manhãs, que se o mundo acabar eu ainda não fui feliz.”( Chico Buarque, claro. )

“Morrer de vez em quando é a única coisa que me acalma.”( Paulo Leminski )

“Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”( Saint Exupéry )

“Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez.”( Autoria Controvertida )

“A saudade é o revés de um parto; a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu.”( Chico Buarque, é lógico. )

“Nunca conheci quem tivesse levado porrada.Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.”( Fernando Pessoa )

“As pessoas fazem o melhor que podem. Se tivessem conseguido mais, teriam feito.”( Desconheço a autoria )

“Amor não é amor,Se quando encontra obstáculos se altera,Ou se vacila ao mínimo temor.”( Shakespeare )

“Ainda que seja noite
O sol existe.”( Wladmir Maiacovski)

“Basta a cada dia o seu mal.”( Jesus Cristo )

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

ponto turístico

o meu ponto turístico preferido, na minha província é a enchente.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

carpi

“MINHA ESCRITA É UM ESPELHO, ONDE NÃO ME CONFIRMO, MAS UM ESPELHO QUEBRADO, ONDE OS CACOS BRILHAM E SÃO FACAS PARA ENFRENTAR O SENSO COMUM.”
FABRÍCIO CARPINEJAR

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

...um luxo!

li no jornal sobre uma mulher que contratou um detetive para seguir o marido.
depois, com as fotos confirmando o imaginável, ela reuniu os familiares e apresentou o motivo da separação, aliás apresentou o motivo fotografado.

eu?eu achei tudo muito chique, quer dizer: civilizado.

fiquei pensando naquelas mulheres que se escondem atrás da árvore, que se disfarçam e seguem o marido, que se atracam com a outra pelos cabelos, que fazem voar pela janela as roupas do desgraçado.aquelas gritarias onde todos se acusam, mas ninguém prova nada.

é, não basta ter as unhas bem feitas, é preciso saber enfiar a mão na merda sem feder os próprios dedos.

logicamente, não desprezando ninguém (aliás, eu nem as unhas faço...), pois todos hão de ser apenas loucamente humanos.

e como disse Pessoa: "todas as cartas de amor são ridículas, mas só quem não escreveu cartas de amor é que é verdadeiramente ridículo..."

(bom mesmo é quando a gente já passou o ridículo e pode rir de si mesmo...)

(e há quem pense que civilizados são os ecologicamente corretos... - eu? eu, estou mundando os meus conceitos... como diz aquela antiga propanda. )

homens... ainda!

não parei de pensar nesta coisa de homem ideal.

não posso deixar de citar alguns (certamente vou esquecer de uns tantos), que me EN-CANTAM: fernando pessoa, caetano, chico, humberto gessinger, renato russo, tom jobim, zeca baleiro, vinícius, lenine, zé ramalho, chico césar, luis fernando verissimo, quintana, leminski, arnaldo antunes, raul seixas, machado de assis, toquinho, djavan, gilberto gil, cazuza, frejat, herbert viana, ... (por aí vai... vai tanto que eu nunca mais volto!)

aliás, homem que é homem, vem acompanhado de uma boa trilha sonora... sabe uns poemas, conhece uns livros e sabe ler uma mulher.

tipos de homem

eu já tive certeza que meu tipo de homem eram os loiros.
tive uma colega que adorava homens de farda.
uma amiga que tinha uma cruz com os bêbados.
outra que sempre arrumava homem mulherengo.
uma que só queria saber dos mais novos.
uma outra que até desistiu da raça.

hoje a ticcia (http://www.ticcia.com/) escreveu na revista paradoxo sobre o seu tipo ideal de homem.

eu não acredito mais em tipos. eu não acredito mais em ideais.

mas, homem mais homem, pra mim, é aquele que me faz acreditar.
aquele que me tira dos contornos do meu corpo não apenas com o seu, mas com o que carrega dentro deste.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

frases

eu me apaixono por frases.
eu moro, morro e renasço nas palavras onde faço morada e também naquelas que me deixam sem teto.
como cantou humberto, numa palavra eu tenho eternidade para uma semana.

"só dói quando eu respiro" (é o título de um blog que eu andei lendo)

"ela procurava um príncipe e ele procurava a próxima." (skank - formato mínimo)

"fecha a luz, apaga a porta" (kleiton e kledir)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Clarice (mais um vez entre tantas que se foram e ainda virão)

É que tudo que eu tenho não se pode dar.
Nem tomar.
Eu mesma posso morrer de sede diante de mim.
A solidão está misturada à minha essência.
Meus conhecimentos mais verdadeiros atravessam a minha pele, me vieram quase traiçoeiramente.
Tudo o que eu sei eu nunca aprendi e nunca poderei ensinar.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

mais um texo que me lê...

às vezes, um texto lê a gente a ponto de causar medo...

lá do blog: http://ameaventurar.blogspot.com/

Did I mean to be mean?

Eu sei, eu sei…. Eu posso ser cruel às vezes. Mesmo que raramente, em situações extremas, quando a minha paciência maior do mundo não deu conta de acompanhar mais, quando a minha imensa tolerância se esgota, quando a minha compreensão quase absoluta me abandona... nessa hora eu sou cruel. De uma forma que nem reconheço, que nem percebo, que nem controlo. Não consigo controlar. Eu que prezo sempre pela justiça, nessa hora não sou justa. Nem boa, nem generosa, nem nenhuma outra qualidade que me seja inerente em outros momentos. Nos meus momentos de esgotamento eu digo coisas que nunca pensei que fosse dizer, uso palavras que não seria capaz de usar, machuco de uma forma que nunca, nunca seria capaz de machucar. E eu não tenho justificativas plausíveis pra isso. E nem acho que tô no meu direito, e nem tento me explicar. Mas é isso que eu sou.Às vezes eu sou cruel só por esporte também. Só pra dar o troco, pra mostrar que posso não ser flor que se cheire se quiser, pra provar (até pra mim) que posso, que consigo. Que sou minha, só minha, e não de quem quiser. Pra me auto-afirmar mesmo. É claro que eu não acho isso bonito. Mas acho isso humano.O fato é que em alguns momentos, e principalmente nesse lugar aqui, eu me despejo, eu me entorno, eu transbordo. De tudo que me preencha, que me encha, que me sufoque, que me atrapalhe os movimentos. Despejo nessa mal traçadas linhas os meus potes de mágoas e revoltas, de alegrias e euforias, de incertezas e vazios. Simplesmente porque essa é a minha terapia. E por me entregar assim sem reservas e freios, sem filtros e pudores, eu às vezes sou direta demais. Curta e grossa demais. Na exata medida em que não consigo ser na vida real, em sentido oposto. Eu não te digo, mas te escrevo. Eu não me declaro, não te olho com paixão, não te digo o que me atrai, o que me envolve, o que me conquista. Eu te escrevo uma carta de amor e coloco aqui, jogo na rede, jogo no universo. E tá feito. Do mesmo modo como eu não brigo, não discuto, não te bato na cara quando essa é a maior vontade.... mas venho aqui e te produzo o maior dos tapas na cara, literário. E no momento em que o faço, nem me importa se você merece ou não apanhar. Me importa que eu preciso bater, que eu preciso me livrar do fantasma. E eu o faço.Depois que volto e me leio, depois que alguém me diz algo, me desarma às vezes com uma única frase, eu vejo que ok, a limpeza foi feita, mas justa eu não fui. Aí posso sopesar tudo de novo, rever os pontos de vista, olhar com novos olhos. Perdoar a mim, ao outro, à vida. Dissipar os nós e os azedos que me habitavam. Às vezes eu olho e penso que exagerei sim, que foi forte demais mesmo, que não foi merecido não. E aí penso que “ôrra, pelo menos eu não bati de verdade”Acho que o que eu quero dizer é..... não é sua culpa. Não mesmo. Talvez não seja minha também, mas sua eu tenho certeza que não é. E você nunca vai ler nada disso, nem vai intuir nada disso, nem vai perceber. Convenhamos, você não é tão perspicaz assim, nem imagina que eu o seja. Mas ainda assim, eu sei, é claro que sei, que você não merece uma pessoa tão pouco pura e tão capaz de ser cruel quanto eu sou, quanto eu posso ser.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

mesmo assim

mesmo sabendo o quanto dói desacreditar, um dia eu quero sentir o prazer e a inocência de acreditar de novo...

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

monografia da pós

então, a orientadora me olhou e disse: - agora, solta a tua escrita e esquece a fundamentação teórica.
eu ri por dentro.
eu ri por fora.
eu fiz cara de quem merece a cobertura do bolo e a salsicha do cachorro-quente.
ela percebeu.
ela perguntou se eu tinha entendido.
sim, claro: agora eu paro de citar os mortos e dou voz a minha coleção particular de fantasmas.

pausa

é: esta época do ano a gente escreve menos e vai cuidar da bunda.
é, da bunda.
quem repara nas nossas vírgulas?
quem não repara na nossa flacidez?

e tantas vezes eu não consigo diluir as palavras para que elas fiquem da cor do que eu ando pensando... tantas vezes!

sábado, 27 de setembro de 2008

diretamente do PALAVRA AGUDA

Amo o pensador orgânico.

Amo o pensador orgânico porque só para ele as verdades emanam mais de um suplício interior que de uma especulação gratuita. Ao homem que pensa pelo prazer de pensar contrapõe-se o homem que pensa sob o efeito de um desequilibrio vital. Amo o pensamento que guarda um gosto de carne e sangue, e a uma abstração vazia prefiro mil vezes uma reflexão surgida de uma exaltação dos sentidos ou de uma depressão nervosa. Os homens ainda não compreenderam que o tempo das preocupações superficiais é passado, e que um uivo de desespero é mais revelador que o mais sutil dos argumentos e que uma lágrima tem sempre origens mais profundas que um sorriso.

Emil Cioran, Nos cumes do desespero, Obras, pg. 31-32.

clarice, clarice, clarice...

O que eu sinto eu não ajo.
O que ajo não penso.
O que penso não sinto.
Do que sei sou ignorante.
Do que sinto não ignoro.
Não me entendo e ajo como se entendesse.

Clarice Lispector

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

uma parte de uma entrevista da clarah averbuck

3.Você se considera uma autora maldita? Do tipo marginal? Porque bem ou mal, pelo que vejo o que vc faz, tem atitude, diria, punk.
acho uma bobagem esse negócio de maldito. atitude punk é uma coisa meio antiga também. eu só faço as coisas que eu acredito do jeito que eu acho que devem ser feitas, não acho que exista maldição e nem punkismo nenhum nisso. se pra isso precisar atrasar as contas todo mês, tudo bem.

*** por toda palavra ter a chance de ser maldita é que escrever pode ser uma salvação!

3b. O sucesso te seduz? Te interessa entrar no sistema?, Que porta você quer entrar no sistema? sabendo que para tudo tem um preço... ou bancar a vida indie vale mais a pena? Em outras palavras, jogar o jogo do sistema e quem sabe ter mais leitores, te parece uma bom caminho / boa opção?
me interessa ganhar na megasena. não me interessa ter mais leitores porque ninguém nunca entende nada - aqui no brasil todo mundo tem muita pressa de julgar e rotular tudo sem nem conhecer. eu quero ganhar dinheiro suficiente pra bancar a minha vida com coisas que não afetem a minha integridade. se não for do meu jeito eu não faço - meu jeito pode até ser negociável, mas se eu me sentir ferida, não vou fazer. uma coisa boa, por exemplo, foi ser selecionada no petrobras cultural e ganhar pra escrever um livro. isso sim é vida.

4. Você acha sua geração muito careta?
eu não acredito em geração. o mundo está segmentado demais para ainda ter essa divisão.

5. E os críticos? Quão compreendida você acha que é, ou não és?
alguns entendem, outros não entendem, outros não gostam mesmo, outros amam. crítico pra mim é só um cara com uma opinião. isso não me afeta.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

na mesa das casadas

uma diz que entenderia uma traição, pois o casamento é o tédio na sua forma mais completa.
a outra diz que depois do cartão de crédito, não se usa mais separar, só representar.
algumas dizem que se aventuram a tomar viagra paraguaio. (comprar para o marido é coisa do passado!)

eu fico tentando compreender quem eu sou para representar melhor...

rinite

tem dias em que até os meus pensamentos ficam fanhos.
tem dias em que até o meu útero espirra.
tem dias em que até o fígado coça.
tem dias em que até a alma pensa em suicídio.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

roda morta - zeca baleiro

O triste nisso tudo é tudo isso
Quer dizer, tirando nada, só me resta o compromisso
Com os dentes cariados da alegria
Com o desgosto e a agonia da manada dos normais.

O triste em tudo isso é isso tudo
A sordidez do conteúdo desses dias maquinais
E as máquinas cavando um poço fundo entre os braçais,
eu mesmo e o mundo dos salões coloniais.

Colônias de abutres colunáveis
Gaviões bem sociáveis vomitando entre os cristais
E as cristas desses galos de brinquedo
Cuja covardia e medo dão ao sol um tom lilás.

Eu vejo um mofo verde no meu fraque
E as moscas mortas no conhaque que eu herdei dos ancestrais
E as hordas de demônios quando eu durmo
Infestando o horror noturno dos meu sonhos infernais.

Eu sei que quando acordo eu visto a cara falsa e infame
como a tara do mais vil dentre os mortais.

O triste em tudo isso é que eu sei disso
Eu vivo disso e além disso
Eu quero sempre mais e mais.

promoção de amor no serviço bancário

são tão raras as vezes em que o caixa eletrônico não dá conta dos meus baixos valores.
mas, aconteceu.
de cara, o caixa me olha e pergunta:
- não quer transferir a tua conta para esta agência?
eu faço aquela cara de quem precisa de mais explicações.
ele me diz: - sim, preciso de pontos. sou promovido através de pontuações.
eu, remendo dizendo que sou muito bem atendida na outra agência.
ele me pergunta o nome de quem me atende lá.
eu digo e elogio.
ele me diz que ele conhece a eficiência desta pessoa, mas que na agência dele eles são mais amorosos. (sim, AMOROSOS)
eu falo: que pena, mas amor eu ando passando adiante, eficiência pra mim já tá bom demais.
ele me olha incrédulo: como assim?
eu falo: - amor é uma aposta muito alta. prefiro a bolsa de valores.
ele me olha mais assustado ainda.
eu continuo: um coração vale mais que um fígado e um rim juntos, sabe?
ele me olha como quem não sabe mais de nada.
eu guardo o dinheiro na bolsa e o coração nem eu sei onde. e me vou.

o reizinho mandão

Notícia ZH

Pão francês vai mudar de gosto e ficar mais barato
Farinha de trigo vai ganhar mandioca na composição


Com o objetivo de reduzir a dependência do Brasil à importação de trigo, um projeto pretende incluir até 10% de farinha de mandioca na receita do pão francês. Já aprovada no Congresso e próxima de ser sancionada pelo presidente Lula, a medida já provoca polêmica, pois deverá alterar o gosto do pão.
Conforme reportagem do Bom Dia Brasil, para ficar no ponto, o pão tem que ser feito com boa farinha de trigo, ingrediente que o país precisa importar. Ao todo, 75% vêm de fora. Justamente para diminuir essa dependência, a farinha de trigo deveria passar a ser misturada com fécula de mandioca. — Dá certas alterações no desenvolver da massa. Isso muda a característica crocante do produto — afirma José Nascimento, vice-presidente do Sindicato da Indústria de Alimentação de Brasília (Siab).
Prefeituras, estados e governo federal ficam obrigados a comprar pães, biscoitos e massas feitos com a farinha misturada. Na iniciativa privada, é opção. Os moinhos que aderirem à novidade se livram de alguns impostos. Defensores da lei argumentam que a mistura não altera o sabor dos produtos feitos com farinha de trigo, mas muitos cozinheiros discordam.— Se fosse bom, não precisaria ser obrigatório. Todo mundo adicionaria ou misturaria farinha de mandioca à farinha de trigo — diz o dono de um moinho, Roland Guth.

*** Eu fico lembrando da sábia letra o Humberto: "E toda forma de conduta se transforma numa luta armada e a força deixa a história mal contada..."

(Também lembrei que a lei nos impede de comer um simples bombom de licor de sobremesa, se formos dirigir depois do almoço...)

domingo, 14 de setembro de 2008

mãe

se tem uma coisa que eu não gosto de pensar é na morte das pessoas que eu gosto.
tantas vezes, me parece mais fácil morrer do que perder alguém querido.

então, a minha mãe, numa destas conversas desencontradas e cheias de bichos - no msn -, me pediu pra ficar perto dela quando ela morrer.

como não iria ficar, se é através dela que eu respiro o ar que tantas vezes me falta? (assim, como disse o isma...)
como não iria ficar, se existo melhor perto dela?

mãe, se eu não ficar perto de ti, eu morro antes...

(às vezes a minha mãe parece a clarice lispctor me escabelando as idéias...)

affe! (e tudo isto num domingo à noite!)

32 !!!

então, eu disse aos alunos que esta semana é meu aniversário e que íamos ter um lanche surpresa .
tudo ia muito bem obrigada até uma criança ter a infeliz idéia de perguntar quantos anos eu ia fazer.
32.
-mas, como profe? então tu é daquela época que tinha escravos?
-profe, a minha mãe vende avon, quer ver no livrinho um creme pra ficar nova de novo?
um outro apaixonado perguntou se quando ele puder casar eu já vou estar de bengala.
de repente uma criança piedosa contou em alto e bom tom que às vezes a gente pode ter mais ou menos idade....
como assim???
quando eu viajo de ônibus meu pai sempre diz que eu tenho 5 anos pra não pagar passagem.

agora eu tô decidindo se eu minto a idade, compro o creme da avon ou faço o tal lanche coletivo.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

então, o que fica de tudo?

pra mim sempre é a trilha sonora e o cheiro.
e é por eles também que parto ou fico, e sempre me quebro.

se ficar o bicho pega e se correr o bicho come

não tem como não reparar nos absurdos políticos.
hoje uma candidata da minha província disse assim: o bem do povo é a minha estrela guia.
eu fico pensando no que passa pela cabeça de alguém que escreve um discurso destes.
no mínimo, deve ter escutado muito os antigos vinis da xuxa.
imagino, que antes da campanha terminar, ela vai prometer uma visita do papai noel a cada eleitor.
esperemos ou rezemos?

sábado, 6 de setembro de 2008

às vezes, ainda tenho um coração de moça

É DURO TER CORAÇÃO MOLE
Alice Ruiz

por favor
não me aperte tanto assim
tenha cuidado, pega leve
olha onde pisa
isso é meu coração
meu ganha-pão
instrumento de trabalho,
meio de vida, profissão
meu arroz com feijão
meu passaporte
para qualquer parte
para qualquer arte
não machuque esse meu coração
preciso dele para me levar a Marte
sem sair do chão
não me aperte
não machuque
tome cuidado
eu vivo disso
poesia, sonhos e outras canções
sem emoção
morro de fome
sinto muito
mas não há nada
que eu possa fazer
sem coração.

alice ruiz

já não temo fantasmas
invoco a todos
que venham em bando
povoar meus dias
atormentar minhas noites
entre tantos
loucos e livres
existe um
que é doce
e que me falta.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

cardápio de hj, a perfeição do almoço

todo dia na hora do almoço eu corro pra casa.
esquento o pote do dia no micro.
engulo.
lavo a louça de olho no relógio para que a paisagem da pia pela noite não seja transbordante.

hoje, hoje uma quarta-feira.
meio da semana.
ela convida pra almoçar.
comida de panela no capricho.
cerveja no ponto.
mesas ao ar livre.
sombra de árvores.
amigos com os quais se desabafa intimidades.
risada de boca cheia.
alface no dente.
alma leve.
louça branca.
flor fresca na mesa.

às vezes, às vezes eu lamento de verdade não ter o privilégio de estar a passeio nesta vida.

ela sempre têm as melhores surpresas: a sensibilidade, o prazer, a dica do livro, a dica do filme, mas o melhor mesmo são as atmosferas que ela cria nos detalhes. o tanto que transita entre os diferentes. o tanto que ela acompanha o que não se alcança. o tanto que ela sabe traduzir aquilo que a gente evita nomear. o tanto que ela sabe afiar as palavras. o tanto que ela se pari para a gente nascer. o tanto que ela faz a minha solidão se sentir acompanhada.

ela esquece tanto, mas nunca esquece de ser, ser quem ela é.

domingo, 31 de agosto de 2008

Já que aos domingos, alguns ainda vão à missa...

Oração de Clarice Lispector

Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença.Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o amor materno que nutre e embala.Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar.Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços meu pecado de pensar.

*** Clarice é sempre Clarice, graçasazeus, Amém!

sábado, 30 de agosto de 2008

***

Quantidade de velas no teu último aniversário?
*** vela pra mim é quando falta luz, pode? (romântica, não?)

Tatuagens?
*** nem maquiagem da avon...

Já chorou por alguém?
*** faz tempo, agora eu desisti das pessoas.

Peixe ou carne?
*** desde que a louça não sobre pra mim, pode ser qualquer coisa.

Música preferida?
*** a voz de algumas pessoas e o silêncio de outras tantas, mpb e rock.

Metade cheio ou metade vazio?
*** já transbordou.

Filme preferido?
*** os que me traduzem, os sem ação e cheios de atmosferas.

Coca-Cola simples ou com gelo?
*** com gelo engorda menos.

Melhor amigo(a)?
*** eu já passei desta fase.

Quantas vezes você deixa tocar o telefone antes de atender?
*** todas, eu odeio telefone.

Melhor sentimento do mundo?
*** borboletas no estômago !!!

Se pudesse ser outra pessoa, quem seria?
*** atualmente, eu preferia ser um cachorro e nada saber deste mundo cão.

O que você tem debaixo da cama?
*** minha coleção de fantasmas.

Uma frase:
*** e cada perda inaugura uma multidão ( é uma frase minha!)

Bicho-papão

Na semana do folclore eu e meus alunos escutamos várias histórias de monstros, tudo com a luz apaga e nos dando ao direito de sentir todo o medo e toda a coragem que cada um se permitiu.
Como TODOS os meus alunos já viram (de perto!) o bicho papão, houve até discordância: ele é peludo ou cor de rosa? Tem três rabos ou um só? Para maior garantia de que todas as imaginações e memórias fossem preservadas, cada um desenhou o seu bicho-papão e fizemos uma exposição tenebrosa na sala de aula. Só faltou o meu bicho-papão, muito cobrado por algumas crianças. Infelizmente eu vou ficar devendo este tema a eles, eles ainda não precisam saber o quão bonitos (esteticamente) podem ser os bichos mais feios.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

contraponto

a feiúra dos candidatos exposta pela cidade X a beleza dos atletas que ainda estão aparecendo na TV.

motivo

eu assisto ao horário eleitoral, porque todos os políticos me dão certeza que é preciso anular todos os meus votos.

dos dias de muito vento ou temporal

eu gosto destes dias de vento.

estes dias em que o cabelo vira uma palha e todos os penteados se vão.
que as janelas batem sem parar.
que tudo sai voando.

que as folhas estão sempre dançando no ar ou no chão.

porque eu ouso tão pouco perder o controle,
que enxergar que quem comanda tudo ainda é o invisível da vida me dá uma leveza danada de boa.

sem falar que as condições do tempo não há político ou dinheiro que compre ou corrompa.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

mundo olímpico - o fim

então é isto:

os chineses ganham medalhas porque treinam tanto que são até mesmo separados de suas famílias. os atletas chineses são propriedade do governo.

os africanos de países pobres são os mais rápidos do mundo, porque precisam percorrer enormes distância a pé ou correndo para chegarem à escola.

um judoca brasileiro quase não participou porque não tinha grana para fazer o exame de mudança de faixa.

quando assisti ao encerramento escutei de uma comentarista (ex-atleta olímpica) que olimpíada é uma guerra sem armas.

só gostaria de saber por onde andou (pulou, nadou, correu ou saltou) o famoso espírito olímpico...

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

vez em quando

minha mãe me contou que a minha irmã nem comendo está de tantas saudades do namorado que mora longe.
mas, logo emendou que pode ser bom, afinal perder uns quilos não lhe fará mal algum.
meu pai riu dizendo que a minha mãe nunca perde a capacidade de achar algo bom em todas as coisas.
eu contei - que alguém contou - que o avô está doente da cabeça, esqueceu de tudo.
e que freqüentemente paquera a sua mulher, esquecendo que eles já estão casados.
e que esta ao invés de ficar triste, está se sentindo amada.

vez em quando eu também tenho histórias bonitas pra contar, mesmo que elas não sejam minhas.

domingo, 17 de agosto de 2008

meu pai e minha mãe

ontem meu pai ligou convidando pra almoçar fora.
eu ia comprar um frango de máquina e ter comida pra requentar no micro durante a semana toda, porque a minha preguiça doméstica é tudo aquilo que imaginação nenhuma alcança.
mas, ele disse: vamos sim, amanhã faz 40 anos (anos!) que eu conheci a tua mãe.
topei na hora.

meu pai, segundo eu: (que vi nas fotos) era um alemãozinho lindo.
meu pai segundo a minha mãe: era um alemãozinho rico que tinha grana para tomar grapette todos os dias na hora do recreio.
meu pai segundo meu pai: era um encalhado, só as tias (as mulheres mais velhas) tiravam ele pra dançar.

minha mãe segundo meu pai: uma morena linda que estava sempre na moda - ela ainda se mantêm linda e na moda - (meu avô era caminhoneiro e viajava pra são paulo e além disto a minha avó era dona de boutique...)

bom, meu pai conheceu minha mãe há 40 anos quando ela estava entrando para um baile (que ele não pretendia ir), apenas estava passando na frente da festa.
mas, de repente ele viu ela entrando.
então, ele foi pra casa, tomou banho, colocou a melhor roupa, lambeu os cabelos, e foi atrás da mulher da vida dele.
até hoje a festa dele é encontrar a minha mãe.

eu?
eu já tomei tanto banho pra gente que nem sabe que eu existo.
mas, hoje eu coloquei a minha melhor roupa também e fui atrás deles, as pessoas mais importantes da minha vida.

mundo olímpico

não sei o que eu invejo mais: o que as ginastas fazem com o corpo ou o que tudo isto faz da / pela bunda delas.

dia destes, um aluno me perguntou: profe, dá pra torcer pra um outro país que não seja o Brasil? queria torcer para alguém que ganhasse medalha.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

implodindo

por uns dias eu vou escrever no meu caderno, tem coisas que a gente precisa explodir sem lançar estilhaços nas pessoas próximas.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Eles e eu

Paulo Coelho disse no Fantástico que mataria por amor, disse que mataria se sua mulher estivesse em perigo, mesmo que fosse preso depois.

Uma vez Pablito ao ser perguntando se já tinha sofrido por amor, respondeu que estava disposto a sofrer mais.

Eu ando passando adiante. Agradeço e passo adiante.

Digamos que depois de ressuscitar, nem a morte e nem a vida me são um brinquedo fácil.
Digamos que depois de ficar sem chão, a gente acredita mais nas asas do que nas raízes.

mais uma vez Criada de Madame, do blog da Ticcia

, se tem alguém que anda falando a minha língua é a Criada!

Dizem que o pior cego é aquele que não quer ver. Diria que há um cego ainda mais pernicioso, que é aquele que não quer ver que quer ser visto. Vivo numa concha, guardo-me dos olhares porque sei que olhares julgam, olhares ferem. Mas aí, quando olho fundo nos seus olhos e vejo que eu queria que você visse o mais profundo de mim, descubro que estou há tanto tempo na concha que não sei mais como sair dela. Fico emperrada em mim mesma, cheia de medo do meu desejo e de tristeza pela minha covardia. Vejo o olhar alheio como um scanner que faz sua varredura instantânea e pragmática de tudo o que há de errado em mim e cubro-me de vergonha: é porque eu não sou o que eu quisera que eu fosse. Tornei-me uma outra coisa, descobri-me cheia de tantas vulnerabilidades, tão humana. E, se isso me tornou mais sábia e investida de uma compaixão de que não me julgava capaz, isso também fez de mim prisioneira. Ou será que apenas mostrou as grades?

erros

ontem o cris me olhou (ainda sentado ao micro) e disse:
- tá cheio de erros. tu não tá revisando, né?

é, não tô.
gosto da capacidade de reflexão da escrita, a de reparação não anda me interessando.
além do mais (da falta de tempo), me reler sempre é não acreditar nas minhas palavras.

eu sou daquelas que quando pensa, não faz.

mas, eu acredito nas pessoas que passam pela floresta e não vejam apenas lenha para o seu fogo.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

notícia

Cientista sugere comer canguru para reduzir gases estufa

Um cientista australiano pediu a consumidores e produtores de carne que substituam produtos bovinos e suínos por derivados do canguru para reduzir as emissões de gases que causam o efeito estufa.
O pesquisador George Wilson, da agência de proteção de vida selvagem da Austrália, sublinhou que o gás metano produzido durante a digestão de vacas, cordeiros e porcos é um potente agente da mudança climática quando lançado na atmosfera - até mais que os tradicionais vilões, monóxido ou dióxido de carbono.

Por outro lado, cangurus, que têm um sistema digestivo diferente, praticamente não produzem metano, disse o cientista. Em um país onde bovinos e caprinos são responsáveis por 11% das emissões de carbono, e que já cria cerca de 30 milhões de cangurus em fazendas, mudar os hábitos alimentares para evitar os danos da "criação de animais tradicional" pode perfeitamente se tornar uma preocupação, ele argumentou.

"Cangurus são adaptados ao ambiente australiano. Se forem criados em quantidade suficiente, seria muito sensato fazer mais uso deles do que já fazemos hoje", disse. "Deveríamos nos preocupar mais com o dano ambiental causado pela criação tradicional de animais, que é profundo no caso da Austrália."

BBC Brasil

Se eu já não sei comprar carne assim, imagina eu comprando carne de canguru.
Eu, que sou trancada, fico muito feliz quando produzo metano... (às vezes eu penso, como eu que sou capaz de tantas merdas tenho tanta dificuldade em fazer coco?)
Eu estou esperando que algum ecologista proponha que se mate todos os seres humanos para preservar o planeta.

?

Que idade você teria se você não soubesse a sua idade?
(Esta eu escutei ontem na TV)

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

abraçar os sonhos

eu queria conseguir abrir os braços pros meus sonhos, com a mesma certeza que as putas abrem as pernas pros desconhecidos.

o meu lado b

o meu lado b sabe que eu não posso acreditar na pessoas porque eu sou uma delas.
o meu lado b adora comer coxinha FRITA e bombom ouro branco.
o meu lado b adora passar o domingo de pijama.
o meu lado b me faz escutar muiiitas vezes a mesma música.
o meu lado b é a preguiça de não ir até a faixa de segurança para atravessar a rua.
o meu lado b faz um cheque com um valor pequeno demais.
o meu lado b me faz roubar revista em consultório médico.
o meu lado b me faz colocar um canudinho na jarra para não lavar o copo e tomar suco de pacote para não lavar o espremedor de frutas.
o meu lado b se apaixona pelos defeitos.
o meu ledo b me faz insistir em ir até o fim de muitas coisas, mesmo sabendo que não há nada recompensador lá.
o meu lado b me faz ler o fim da história antes, para saber se eu quero mesmo chegar até o fim.
o meu lado b não me deixa usar óculos por só agüentar a vida se vista de forma desfocada.
o meu lado b é por onde respira o meu lado a, que eu não sei por onde tem andado.

vida doméstica, capítulo de hoje: o frio na minha vida proletária

tem gente que espera o frio para usar a lareira.
eu aproveito para usar o meu casaco novo.

tem gente que espera o sol para passear no frio da serra.
eu aproveito o sol para poder lavar roupa.

tem gente que aproveita para comer fondoe.
eu como sopa de pacote que engorda menos.

vida doméstica - capítulo de hj: o mercado

eu nunca soube comprar carne.
da galinha só sei reconhecer o que é a coxa e a asa. também sei o que é pé e cabeça (mas, isto não se come).
carne vermelha eu só sei comprar carne moída (e faz pouco tempo que eu descobri que existe de 1ª e de 2ª).
cada vez que eu me atrapalho na fila da carne, o homem do açougue me leva lá pra dentro e me mostra aqueles bois pendurados nos ganchos e me pede para mostrar o que eu quero para ele cortar. um pavor.
então, a minha estratégia é sempre pedir a mesma coisa que a pessoa que está na minha frente pede.
mas, às vezes as pessoas da minha frente pedem fígado. ou bucho.
daí?
daí, eu peço salsichão da perdigão (o bom destas porcarias prontas é que como não precisa temperar a gente não erra no sal.)

pior foi um dia que o comprei um salsichão só.
e o atendente perguntou: o que tu vai fazer com um salsichão?
e eu respondi: o mesmo que se faz com um monte, fazer comida. eu não vou fazer o que eu costumo fazer com um salsichão só.
o homem ficou bordô.
o colega dele riu tanto que eu fiquei mais de mês sem entrar na fila.

mas o pior de tudo no mercado não tem sido a carne, que com isto eu até já acostumei.
o pior é que sempre que eu gosto de um produto ele some.
um exemplo?
não, 3:
meu segredo (aquele tempero em pó)
caldo de galinha de alho e salsa.
maionese hellmann's sabor parmesão.

eu me lembro de quando eu tinha 16 / 17 anos e ia com a carina às festas.
era batata: a gente descobria um menino bonito e sozinho e na outra festa ele já estava namorando.
teve até um dia que a gente resolveu passar a noite uma olhando pra outra, pra ver se o nosso olhar desencalhador funcionava também com a gente.

é, o meu olhar sempre desencalha o que (ou quem) eu mais gostaria de consumir...

do blog da Ticcia, pela Criada de Madame

Quando vejo (leio) coisas assim, sinto-me menos só.

É incrível como posso ser uma boa pessoa, e simples, e feliz, quando as circunstâncias permitem. Gostaria de não precisar ser uma leoa, saindo para caçar todos os dias de modo a alimentar o meu bando. Preferiria sorrir para as pessoas e simplesmente ignorar as ameaças nefastas decorrentes das suas ridículas tentativas de agressão e desmerecimento - porque posso mesmo sorrir e ignorar a agressão e o desmerecimento, pois não são a agressão e o desmerecimento que me afligem: o aflitivo é a conseqüência da agressão e do desmerecimento, a desqualificação perante terceiros que poderá redundar em ser considerada inapta e não mais ter subsídios para alimentar meu bando. Sei que vai ter um engraçadinho qualquer que dirá algo como 'torne-se vegetariana'. Sempre tem alguém que não entende a metonímia e aplica um sentido literal. Já sorrio antecipadamente para (mais) essa e penso que talvez os tempos de paz tenham acabado de acabar.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

a dona alzira

a dona alzira era a minh avó, era não, ainda é, onde quer que ela esteja (é, ela já morreu - de pura saudades do meu avô com o qual ela tanto implicava).

a minha avó era daquelas que tricotava e cozinhava.
um dia ela fez pra mim, um blusão com as mesmas listras da barriga da cuca (do sítio do pica pau amarelo). mangas e costas verdes e a barriga listrada nas mesmas cores, que copiamos da TV. um sucesso!
mas, foi ela que também errou a gola de um outro blusão meu e colocou elástico pra consertar. eu quase morria usando aquilo. teve um dia em que nem copiei nada na escola porque minhas mãos estavam ocupadas, me salvando do gola estranguladora. (é, eu sempre fui pateta, um dia meu pai colocou um vestido virado, as costas pra frente, pra eu ir à escola e eu não percebi....)

das comidas que a minha avó fazia eu gostava das frituras que na minha casa nunca tinha.
bolinho de arroz, batata, chuva e espinafre.
minha avó jurava que de espinafre não engordava nada.
mas, o que ela fazia de mais macabro era sopa com pé de galinha dentro.
na hora de comer, ela pescava o pé da sopa e puxava um nervinho e os dedos da falecida galinha até se mexiam. às vezes ela fazia isto com o pé da galinha dentro da sopa. dava até ondinhas no prato.
outra comida exótica era cabeça de porco assada. isto era o meu avó que comia. eu só olhava. ainda por cima vinha com uma maçã na boca, feito desenho animado. eu pedia pro meu avó se ele que tinha comido os olhos, já que ali não tinha mais nada, só os buracos. ele só ria.

de tarde a minha eu minha avó sentávamos na frente da casa dela.
ela falava mal de todas as vizinhas que passavam - ela sempre falou mal de todo mundo, mas nunca fez mal pra ninguém - , e a vizinha da frente sempre chegava pra conversar.
ela contava pra minha avó sobre macumbas ("trabalhos") que as pessoas faziam pra família dela. eu escutava tudo sem piscar. aliás, nem de noite eu pegava no sono lembrando destas histórias.

tinha também a costureira, que morava pertinho, na qual a gente sempre ia.
a minha avó mandava reformar roupas.
às vezes sobrava pra mim.
a costureira ajustava tudo com alfinete. depois simplesmente puxava tudo e eu saia toda espetada e furada. um horror.
mas eu ia.
no caminho sempre a minha avó colhia funcho pra eu morder. aquilo me dava um enjôo danado depois, mas eu gostava de ficar mordendo aquele pastinho.

as histórias que a minha avó contava eram inacreditáveis.
eu amava.
eu sabia quase todas de cor.
às vezes quando eu fazia ela repetir e repetir, eu mesma lembrava ela de uns pedaços que ela esquecia.
tinha uma de doer de triste. ela contava que um dia esqueceu os tamancos jogando sapata e eles sumiram. daí ela foi pra escola um mês inteiro de pés descalços. quando ela contava esta eu ficava tão triste que ela logo emendava uma outra engraçada.
outra coisa que era o máximo era abrir a caixa de fotos.
meu avó cortava as pessoas mortas de algumas fotos, pra não dar azar.
eu achei o máximo até o dia que eu descobri que ele era poderia ser o próximo a ser cortado dos seus próprios retratos. daí, nunca mais a brincadeira teve graça.

a pior idéia que a minha avó teve na vida foi lavar a minha cabeça com chá de arruda para dar jeito nos meus intermináveis piolhos.
aquele cheiro me enjoava ao ponto de causar ânsia de vômito, mas não teve jeito.

minha avó levava eu à benzeideira.
lá também tinha arruda, mas passava rápido.
minha avó sempre dizia que eu tinha quebrante e olho gordo.
sempre. até depois que eu era maior.
deusdocéu: o que será que ela achava que os outros podiam invejar em mim?
só se fosse ela, a minha avó.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

o peso

talvez eu viva tentando emagrecer não só as minhas gorduras globalizadas, mas o peso que é a vida.
a yeda aprovando o próprio aumento de salário e achando um rombo no orçamento o aumento que os professores nem ganharam ainda.
os jogadores de futebol ganhando por mês mais do que eu vou ganhar uma vida inteira.
a china irrespirável - de tão poluída - sediando os jogos e o mundo todo compactuando e aplaudindo.
ontem no fantástico, um senhor que passou 19 anos preso injustamente e ficou cego numa rebelião disse que acredita na justiça.
eu sigo morrendo de saudades de acreditar em qualquer coisa.
eu sigo lendo a previsão do tempo, porque ela sempre falha, mas ela indenpende de influências políticas.
é, eu cortei os cabelos, pra não cortar os pulsos ou o pescoço.

a história do homem se constrói pedra a pedra na sua queda. (affonso romano de sant'anna)

domingo, 3 de agosto de 2008

a samambaia voadora

(a ficção da literatura é uma desculpa para aqueles que usam as palavras para ocultar seus crimes.)

ela nunca teve grande simpatia pelas atividades domésticas.
apesar de ser uma ótima mãe pela virtude da escuta herdada de sua própria mãe e pelos conselhos estranhos, inspirados nos livros cult que sempre leu.

deixava o filho na creche e corria pro cinema, pois a temperatura da mamadeira e a promoção de fraldas para ela sempre foram papo furado. ele nunca se importou, pois a alegria dela sempre esteve entre as suas preferências.

a família ia bem melhor que tantas outras que fazem de conta que vão bem.

bem cedo teve as trompas ligadas, mas nunca se desligou do mundo. muito pelo contrário.

o fato da samambaia ela tinha esquecido, até o dia que isabella tinha deixado de ser apenas uma marca de bolacha para virar um caso.o caso passando na tv e ela sintonizou o seu passado.

um dia daqueles em que nada dá certo. o arroz queima. a bateria do carro se vai. o marido se atrasa. um criança gripada. a outra com a bunda assada. e o outro chutando a barriga que ela não mais conseguia acomodar a todo o instante. sim, era hora das crianças irem para a cama, mas o desfile de algum time não dava trégua na rua. espiou pela janela e da fila nem se via o fim. ligou a TV e mais inflação.
no seu minuto de loucura que não costumava reprimir, olhou os filhos chorando e não teve dúvidas: arremessou a samambaia pela janela. não, não pôde sentir o alívio do seu ato, pois ao invés da folhagem atingir o chão, atingiu os fios de alta tensão gerando um fogaréu.
ligou para o marido, confidenciado o crime, ele veio rápido e devagar eles se deram conta que nada tinha acontecido, apenas a explosão em todos os sentidos. apenas a explosão daqueles que não se permitem morrer de câncer. daqueles que não se limitam a sorrir amarelo.

ela nunca pensou no quanto ele era capaz de entendê-la, pois a sua capacidade de compreendê-la (muitas vezes sem entendê-la de fato) já lhe dava um cúmplice no crime perfeito da vida.
naquela noite ela não precisou de remédio para dormir e ele dormiu uma noite sem sonhos. bastavam as cores do dia, da noite ele só quis o silêncio.

depois da clareza que só é promovida pela escuridão de uma noite de sono, ao saírem do prédio, riram da samambaia estatelada no chão e seguraram com mais força as crianças no colo do braço.

até hoje ninguém entende porque para cada amiga grávida ela dá uma samambaia de presente. sempre. e ele faz questão de ir junto à floricultura escolher. sempre lembrando ela de levar junto também as correntes para pendurar a folhagem.

tem gente que diz que é até promessa. mas, só aqueles que sabem que a vida ultrapassam todos os entendimentos não acreditam nestas bobagens.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

terça-feira, 29 de julho de 2008

mas, sempre tem um amanhã

depois de amanhã eu vou passar a tarde com a minha mãe.
daí, eu olho pra ela e digo: vamos convesar deitadas na cama?
ela me olha e diz: vamos ligar o lençol elétrico?

extrato das férias de inverno

quase uma centena de páginas corrigidas.
um mês de aula planejada.
20 páginas da minha monografia paridas.
franca expansão da minha bunda de secretária.
(até a celulite da minha bunda dói das intermináveis horas sentada)

(a piscina da hidroginástica, em reforma novamente... e quem me faz companhia é o aquecedor e o barulho da chuva que a minha concentração não me permite escutar.)

cada vez que a minha vida rende, eu me rendo à morte: esqueço de abrir a janela, como qualquer coisa, abandono meus autores preferidos, não telefono pra minha mãe, não tiro o pijama... como disse a sábia clarice lispector: a vida é uma loucura que a morte faz.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

cenas do próximo capítulo

eu tentando me concentrar na monografia da pós.
se interessar possa: a exclusão do discurso do louco, embasado em foucault.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Minhas desequilibradas palavras são o luxo do meu silêncio - Clarice Lispector

o terreno do sobrado onde eu moro era o pátio de crianças de 3 prédios inteiros.

é muito difícil eu tomar um banho de menos de 15 minutos.

é muito difícil eu não ir trabalhar de carro.

é raro um dia que eu não como carne. (e eu gosto tanto de animais!)

nem sempre eu separo o azeite que sobra para a reciclagem. (é, eu não gosto de engordurar as mãos)

sim, eu sempre uso guardanapo de papel.

quando tem festas eu compro copo plástico para não ter que lavar.

quanto mais poderoso for o detergente, mais eu compro.

se eu uso a sacola de pano eu não deixo de comprar saco plástico pro lixo.

nunca usei uma barra de giz até o fim porque dói a ponta dos meus dedos.

quando é frio eu ligo o aquecedor.

quando faz mais de 35 graus (todo o verão) eu tenho bons sonhos com o ar condicionado ligado.

eu gosto de pintar e desenhar com lápis bem apontados. (mesmo que assim eles se acabem antes)

faz poucos dias que troquei a máquina de lavar roupa. (a outra, de uma forma ou de outra vai virar sucata)

eu me esforço para usar folha de rascunho (usada), mas nem sempre eu consigo.

o meu xampu é cheio de poluentes. e eu lavo todos os dias o cabelo.

tem coisas que eu imprimo só porque meu olho cansa de ler na tela do micro.

eu compro pouca roupa, mas compro muitos livros (e nem sempre eu leio os livros que eu compro)... e lavo muito as poucas roupas que tenho porque a minha rinite é cruel.

às vezes eu esqueço a luz acessa.

eu gasto mais água para lavar louça do que a minha mãe, mas a minha mãe não mora mais comigo.

claro que eu me envergonho de tudo isto, mas não tanto assim... senão eu não faria.
claro que eu também gostaria de me indignar - com o corte das árvores -, mas eu não posso.

como disse aquela escritora (não é só a minha conduta que é falha, a minha memória também) "as pessoas sensíveis não são capazes da matar galinhas. as pessoas sensíveis só são capazes de comer galinhas."

terça-feira, 22 de julho de 2008

não deixaremos rastros porque somos só poeira de estrelas (Polvo de Estrellas)

estes dias ele perguntou pra quê serve um blogue...
acho que eu uso o meu pra conversar comigo mesma, pra habitar algnus e ser habitada por outros...

" e está tudo bem se duvidamos do coração, perdemos a medida e penduramos a armadura..." (Fusión).

sexta-feira, 18 de julho de 2008

o mail e a respectiva resposta

é tanta bobagem que a gente recebe.
é de forma tão babaca que as pessoas escrevem.
que só tentando brincar pra suportar!

Aulão com o Tema: "LABORATÓRIO DOS MOVIMENTOS TÉCNICOS"

Dia 27/07/08 - AULÃO DE DANÇA DO VENTRE
*** O ventre só dança no sexo, o resto é estória...
*** ("aulinha" é pra matar, mas "aulão" não é diferente...)

Horário 13h30min-16h30min

Técnica do shimi e passos típicos;

Laboratório dos oitos infinitos;
***fiquei curiosa com o laboritórios dos oito infinitos.
***mas, de verdade mesmo, tudo que a gente anda precisando é um pouco mais de limite, não?

Postura física e técnica (Performance);

Respiração e Expressão facial;
***expressão facial eu perdi pra sempre. me acostumei com tantos absurdos que a cara de tonta nunca mais desgrudará de mim.

Concentração e persistência;
***aulão de dança do ventre que ajuda na concentração e na persistência.
***tudo bem que na colônia a gente até planta rabanete de quilo, mas... apesar de não se ter mais limite pra nada, se quer um mímino de dignidade.

Entrega total do corpo e da mente.
***entrega TOTAL do corpo e da mente quando a gente é jovem é sexo, depois é velhice.
*** em raros casos é hipnose.

No final da aula, apresentação da professora.
*** ainda bem que não é do ventre da professora!

Reserve sua vaga!Investimento: R$ 35,00.


Dança do Ventre mensal:
*** então, o ventre dança apenas mensalmente?

Segundas-feiras 18:30 – 19:30
Terças-feiras 19:00 – 20:00
Quintas-feiras 19:00 – 20:00
Mensalidade R$65,00

Outros serviços:

-personal-trainer;
***eu prefiro contratar um terapeuta porque a minha bunda é um caso perdido.

-jump;
***a minha celulite dói quando balança.

-aeróbica;
*** eu não tenho coordenação motora.

-local;
***eu tenho tanto local que eu gostaria de melhorar que é um caso de globalização.

-alongamento.
*** só se for de salário!

quinta-feira, 17 de julho de 2008

pontualidade atrasada

finalmente eu comprei um casaco caro que esquenta até as canelas.
uma calça destas que comprime até a gordura do tornozelo.
e ainda vou comprar uma bota destas de cano muito alto e um solado que mais parece uma acha de lenha.
e o inverno se foi... (e graças a zeus não há cartão de crédito que compre a previsão do tempo, ao menos uma coisa que não se compra...)

apesar de ser pontual, eu sempre habito o tempo antes ou depois do que eu deveria...

lá do blog da Ticcia, algumas definições

Imaturidade, s.f., é uma venda para os olhos com a qual nascemos. Quanto mais se vive e mais se sofre, mais cedo consegue-se retirá-la. Contudo, há quem, em vez disso, siga usando-a e chamando-a de «certeza».

Força, s.f., é o que nos resta quando tudo mais já se perdeu.

Sonho, s.m., é a vida que o melhor em nós escolhe, a despeito de todo o resto.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

polareripolarerá

, o que mais dói na lúcia luft é que as pessoas se enganam e chamam ela de Lya (Luft)!

a festa

às vezes as coisas não ficam mais claras nem depois da escuridão de uma noite de pouco sono.o que mais doeu durante a festa era que a alegria de todos eles era verdadeira.o que mais doeu foi confirmar que a saída é sempre uma porta quase ilusória que tão poucos ousam, e que talvez por isto as pessoas acreditam na alegria que qualquer um (até aquela que grita, mas acha que canta) consegue inventar. o mais angustiante é que sem precisar ser personagem, eles eram as pessoas da minha tragédia quase diária. talvez nenhum deles tenha se dado conta que o filme, é uma forma de quase traduzir o que ninguém ousa chamar pelo nome. este nome escrito com todas as letras nas linhas de cada ruga daqueles rostos vincados não só pelo tempo. mas por tudo que este pode carregar consigo. por tudo que o ele pode fazer (ou desfazer) das pessoas.e eu?eu estava ali, não sendo cúmplice da dor alheia, mas sabendo que eu estava em todos eles. sempre. desde os meus avós. passando por meus pais. e chegando aos filhos que eu nem penso em ter.ela que sempre consegue circular tão bem entre tudo e entre todos - que alcança as pessoas de uma forma profunda, sem muitas vezes se dar conta - , olhou para um senhor de mais de 80 anos e perguntou seu nome. ele contou contente que se chamava ito. repetiu várias vezes o sobrenome de poucas letras que eu esqueci) e emendou por conta a conversa, dizendo que fazia parte de 4 grupos de idosos e que há 5 anos namorava a companheira lenhardt. (sim, aqui muitas vezes as pessoas se matam para arrumar ou manter um sobrenome.)fiquei com pena de mim, que não tendo nem a metade da idade dele não relato minhas não-façanhas com a metade do seu entusiasmo.fiquei com pena de tanta gente que toma fluxetina pra acreditar nisto tudo que todo mundo saber de cor e faz de conta que não conhece.não, não acho que eu tenha ficado velha antes, apenas compreendi que a morte nos habita de tantas formas que acreditamos ser sua fuga.a florzinha (existe coisa mais irritante que "inha"?) mais perfeita para qualquer sepultura sempre é a falta de perspectiva, quando a gente sabe tão bem o calejamento dos próprios pés que que recolhe as asas, pra sempre.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

do planeta verde, por uma gorda

gordo sempre tenta.
agora eu feliz da vida que aprendi a comer couve crua.
picar em tirinhas. azeite de oliva. temperar com "meu segredo". delícia.
um pé por dia. meu estômago parece a floresta amazônica, mas a minha bunda continua a mesma.
tudo seria mais fácil se eu soubesse comprar e não apenas comer.
quando eu vou ao mercado eu não sei diferenciar a couve da rúcula e do espinafre - e eles ficam todos juntos - (sim, a alface é mais clara e o brócolis tem aquela cara inconfundível de esponja).
daí, eu eu peço ajuda e sou observada como um alien ou arranco um pedaço de cada folha e mando ver com agrotóxico e vermenzinhos.
quando eu digo que sei as coisas pelo gosto, não é metáfora.

mas, o mundo dos gordos é patético, mesmo!
comprar fruta é uma loteria.
podre, verde, bichada,...
quando eu escolho fruta eu sempre penso na facilidade que é comprar um pacote de bono!

às vezes a minha mãe me pergunta como é que eu cozinho.
quem cozinha (divinamente) é o cris, e de vez em quando eu faço culinária surpresa porque eu nunca sei onde uma experiência culinária pode me levar.

com tanta coisa que se encontra no mercado negro e até no virtual, bem que podiam vender lombrigas em potinhos pros gordos tentarem mais uma maluquice.

qual é o teu monstro preferido?

O monstro mais simpático que eu conheço é o pensamento, porque ele me mastiga ao ponto de me triturar (é... desgraça pouca é bobagem!), me triturando a dor é tanta que não há como dizer onde dói mais, não existe a possibilidade de curativo ou analgésico. Sem falar que o sangue que ele provoca é a linha que me faz costurar e entender a graça e a desgraça disto que denominamos vida.

terça-feira, 8 de julho de 2008

só isto

não, eu não gostaria de perder os meus leitores...
não, eu não gosto de não atualizar...
mas, o meu dia só tem 24 horas...

o note estragou e vai praticamente morar uns tempos no conserto.
(o note era o MEU computador)

a biografia do paulo coelho (que jogue a primeira pedra quem nunca leu e que se enterre quem não fica curioso pra saber a trajetória de um homem que ficou milionário com literatura) tem 630 páginas.

a novela pantanal está tão perfeita que nem intervalo tem.

comecei um diário escrito à mão, o vagar da caneta me parece uma arma mais ética que a pressa das teclas do micro.

ainda não cansei de ficar olhando a minha máquina de lavar roupas - nova - (batizada de escrava isaura) funcionando.

as leituras da monografia precisam ser fichadas, já que a memória sempre é distorção de tudo e de todos para fazer a vida mais suportável.

as aulas da hidroginástica recomeçaram, depois da piscina passar um mês estragada. preciso comprar um roupão para não congelar a celulite e me conformar com as músicas de rodeio nas quais a profe tanto insiste.

retomando ontem

sempre escrevo com mais clareza depois da escuridão de uma noite de sono.
ontem (segunda-feira!) um psiquiatra afirmou que "o homem é o animal que não deu certo".

bem bom pra começar a semana, não?

terça-feira, 24 de junho de 2008

o milagre do filme

desde sempre eu corri atrás daquilo que nunca se deixa capturar: a mágica da vida.
eu nunca gostei e algodão doce, mas sempre precisava conferir como o açúcar tomava a forma de nuvem.
sempre tentei achar a cortina da chuva, o local exato onde ela terminava ou começava.
nunca deixei de ficar atenta para a primeira estrela do céu.
inúmeros finais de tarde tentei escutar o chiado do sol mergulhando no mar.
de tanto colocar meus pés atrás daquilo que necessitava de asas eu me
perdi ou me achei naquilo que muitos chamam de arte.
com a literatura do isma foi mais além por ser mais aquém, a confissão dos pecados dele simplesmente absorveu os meus, sem necessitar se quer de absolvição.
cada vez que eu pensava nas palavras dele sendo paridas em imagens eu via a mim mesma castigando os pés para alcançar aquilo que precisava de asas.
para mim, o menino de verdade já existia e gepeto ou a fada azul não
poderiam ir além do que suas pernas de metáforas e suas lágrimas de vírgula já alcançavam.
mas, isto até eu emergir ou imergir na/da barriga da baleia (como o pinóquio) e entender (finalmente) um tanto da mágica da vida.
depois de tanto calejar os pés atrás daqueles instantes mágicos que eu nunca soube capturar de fato, as pessoas todas que fazem o filme
nascer me deram carona nas suas asas.
já de cara, no figurino, eu encontrei as gurias, que nas roupas tantas que dominam e pelas quais são dominadas, grudam a alma do personagem em nossa pele.
como se eu fosse diane arbus conseguindo fotografar e se nutrir da mágica dos instantes, que nunca tiveram truques.
aí, chega ele (que eu só lembro que tem sobrenome lindo) e se chama marcelo (uma vez eu li que todo marcelo além de se ser habitado pelo mar, tem um menino lindo por baixo). ele traz nas mãos "sapo amarelo" para presentear alguém. nada mais menino nesta ponta de terra fria que quintana.
depois, eu vi todos (de perto e de muito longe como eu sempre faço) almoçando. e soube que eles todos podem mais que gepeto e que a fada azul, eles são a alma do filme, prontos a parir com suas próprias entranhas cada personagem.
eles são a tradução do instante em que o açúcar toma forma de nuvem.
eles são o chiado do sol mergulhando no mar.
eles são a cortina da chuva.
sem truque maior que o brilho no olhar. ou paixão que se traduz no detalhe.
as asas que eu nem tento mais compreender porque tudo que a gente não alcança será nosso para sempre.
e não, eu não mais temi pelas imagens todas que se tornarão o filme baseado naquele livro quase pesado que aliviou a minha existência.
simplesmente porque o filme está ali. pronto.
mais uma vez me mostrando que ser absorvida é divinamente melhor que qualquer absolvição.
amém.

domingo, 15 de junho de 2008

Pato Fu (domingo com sol)

Olha, não sou daqui
me diga onde estou
Não há tempo não há nada
Que me faça ser quem sou
Mas sem parar pra pensar
Sigo estradas, sigo pistas pra me achar
Nunca sei o que se passa
Com as manias do lugar
Porque sempre parto antes que comece a gostar
De ser igual, qualquer um
Me sentir mais uma peça no final
Cometendo um erro bobo, decimal
Na verdade continuo sob a mesma condição
Distraindo a verdade, enganando o coração
Pelas minhas trilhas você perde a direção
Não há placa nem pessoas informando aonde vão
Penso outra vez estou sem meus amigos
E retomo a porta aberta dos perigos
Na verdade continuo sob a mesma condição
Distraindo a verdade, enganando o coração
Na verdade continuo sob a mesma condição
Distraindo a verdade, enganando o coração

quinta-feira, 12 de junho de 2008

das necessidades

eu preciso viajar.
é como se dentro de mim habitasse um mudo que precisa se comunicar com um cego.
eu preciso parir esta ponte.
eu preciso sair daqui pra saber o caminho de volta.

das escolhas

não, não são elas que movem, elas imobilizam...

da série: escrever é...

escritor é um fingidor

por Patrícia 'Ticcia' Antoniete - de Porto Alegre -

A vida não é literatura e a recíproca, meu bem, é verdadeira. Não há literatura que espelhe seu autor, felizmente, por mais que para me certificar de que eu estou viva, precise escrever e escrever, me traduzir e me reinventar, me embaralhar e me perder e me achar, muitas vezes torta e deformada, naquele mesmo espelho.
Literatura não é biografia - não se engane - e, no entanto, é certo que não há ali nenhuma vírgula que não tenha sido tirada do mais fundo de mim. Afinal, qual seria a matéria prima, que não tudo o que sinto, experimento, fagocito, apreendo, absorvo? Mas ainda assim o texto não sou eu, nem fala de mim, não se iluda. A palavra é outra matéria desprendida de mim, que me honra e me eleva, me justifica, me apascenta a carne, me destrói e me acumula, me inverte, me aterroriza, me instiga, me joga no vento, me umidifica e me fertiliza, me transforma. A palavra me amplifica e me diminui, mistura o de mim com tudo que a mim chega e reverbera, com o que posso me permear e me urdir, com tudo que já sou capaz de acolher.
Quando escrevo, deixo de rastejar e de doer. Quando escrevo, sou coisa inapreensível, sem rosto, sem lugar, nem tempo, movo-me acima de mim, construo algo que não tenho, em outra freqüência, outra cor, outro foco e contraste. Quando escrevo, escrevo para não me ser, para me des-ser e, fora de mim, me ver de longe, decuplicada, desmantelada, confundida, decomposta em partes e rearranjada em outras que não são eu, que sofrem, riem, mentem, voam, vomitam sangue, morrem, negam, entristecem, roubam, fodem, amam, dizem a verdade, são cruéis, trucidam, nascem outras, quantas e tantas vezes quantas me apetecerem.
Não espere me encontrar no texto, não me prenda, não busque no ar a minha forma, ainda que ali eu tenha dito que sou eu, ainda que eu precise que você acredite que me encontrou. Não me faça refém das asas que eu custei tanto a saber como usar, não me escravize no incomensurável outro, não tente me achar onde eu preciso mesmo é me perder.

domingo, 8 de junho de 2008

Barthes

A palavra é de uma leve substância química que opera as mais violentas alterações.

(Sim, agora que a minha monografia vai começar a mandar em mim, eu coleciono e posto citações. É, vou escrever sobre a palavra escrita e o ato de escrever.)

Mario Quintana

Um lugar só é bom quando a gente pode fugir para outro lugar.

domingo, 1 de junho de 2008

Escrita Herege

"A leitura dos textos não escritos, tem outra qualidade: o silêncio."

"A escrita investe na eternidade contra as virtudes do efêmero e perde sempre uma lasca da vida, ao erigir suas paredes sólidas."

(pra quem gosta de escrever, "A escrita herege", da Márica Tiburi, que se encontra na Revista "História UNISINOS", volume 8, número 10 de 2004 é imperdível)

das perfeições

"A filosofia é a forma do pensamento quando procura deixar falar o silêncio e eleva à conceito à impossibilidade do dizer e do mostrar."
(A escrita herege da Márcia Tiburi)

fim

todo final sempre é aquilo: a gente mata ou morre.
o fim da novela do homem que grita "epa, epa, epa", foi uma superação: matou e fez morrer toda a arte que pode existir numa novela.
primeiro, a briga das branquelas.
depois, o casamento coletivo.
pra culminar na palhaçada da maria louca.

e nem teve o tal beijo gay...

sábado, 31 de maio de 2008

saber

às vezes, nada pode ser pior que a tão falada "experiência".

a gente não se engana com o cheiro.
a gente não se engana com o tom.
a gente não se engana com o "faz de conta".

a gente não precisa ir de novo até o fim.

saber, às vezes, é a dor de atalhar antes que o que sobrou talhe.

metade cheio ou metade vazio?

...mas, nenhum copo suporta mais que a última gota!

quarta-feira, 28 de maio de 2008

das cenas cotidianas

hoje de manhã, eu vi um homem puxando um carrinho de papel (para reciclar) parado no sinal de trânsito. parado feito um carro, uma moto ou um ônibus.
me lembrei de quando eu era pequena e descobri a calculadora.
nunca mais eu me submeti a perder as minhas tardes com temas numéricos, uma vez que a maquininha poderia fazer aquilo por mim em segundos.
eu roubava a calculadora do meu pai sem culpa alguma. sempre.

hoje eu pensei no que pensa (quanta pretensão) um homem que tem que fazer a força que qualquer motor ou bicho poderia exercer, simplesmente para poder sobreviver.

e no rádio do carro, renato russo cantava: "...queria ser como os outros e ri das desgraças da vida. ou fingir estar sempre bem." (eu também)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Perguntinha

Por que será que quando a mulher finalmente está madura os seus óvulos ficam podres?
Por que será que a natureza da mulher é tão insana?
Será que ela prevê que quando a mulher pensa ela desiste?

sábado, 24 de maio de 2008

minha mãe

minha mãe acha que dá trabalho quando levamos ela ao médico em porto alegre.
não, mãe...
não mesmo, trabalho foi ver você sendo quase mal tratada pelos médicos daqui.
trabalho foi ver você tomar medicação errada e deixar de ser você.
trabalho foi não saber o que você tinha.

te levar para qualquer lugar ou pessoa que possa te ajudar sempre é um abraço.

minha mãe acha que dá trabalho fazermos algumas coisas por ela.
trabalho é pensar que ela pode estar colocando a saúde em risco.

tudo que a minha pensa que é trabalho (logo ela que sempre trabalhou tantos pelos filhos) nada mais é que um prazer, quase um descanso.

minha mãe não é caduca e nem vai ficar.
eu não gostaria que ela ficasse, porque nas memórias dela constam as coisas mais importantes da minha vida.
e se um dia ela ficar, ela vai continuar sendo a mesma pra mim.
a que sempre ajudou e apoiou. (mesmo tantas vezes não compreendendo ou não concordando)
a que faz as comidas que eu tanto gosto.
a que reza por mim.
a que me penteia cada vez que saio de sua casa, mesmo sabendo que a minha vaidade já era.
que todos gostam e se lembram.
a que todos mandam lembranças.
a que está sempre bonita e na luta.
a que está sempre pronta pra mim.

e mesmo se um dia ela ficar sem memória e eu também, não vai fazer mal algum.
porque a gente não precisa de memória pra voltar pra casa, e sim: ... eu moro nela.

um pouco de música

as metáforas e o uso estranhamente lindo de algumas palavras me en-cantam.
sim, eu também reparo óculos e vírgulas!

(claro, os grifos são meus)

Formato Mínimo

Skank

Composição: Samuel Rosa - Rodrigo F. Leão

Começou de súbito
A festa estava mesmo ótima
Ela procurava um príncipe
Ele procurava a próxima

Ele reparou nos óculos
Ela reparou nas vírgulas
Ele ofereceu-lhe um ácido
E ela achou aquilo o máximo

Os lábios se tocaram ásperos
Em beijos de tirar o fôlego
Tímidos, transaram trôpegos
E ávidos, gozaram rápido

Ele procurava álibis
Ela flutuava lépida
Ele sucumbia ao pânico
E ela descansava lívida

O medo redigiu-se ínfimo
E ele percebeu a dádiva
Declarou-se dela, o súdito
Desenhou-se a história trágica

Ele, enfim, dormiu apático
Na noite segredosa e cálida
Ela despertou-se tímida
Feita do desejo, a vítima

Fugiu dali tão rápido
Caminhando passos tétricos
Amor em sua mente épico
Transformado em jogo cínico

Para ele, uma transa típica
O amor em seu formato mínimo
O corpo se expressando clínico
Da triste solidão, a rúbrica.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

vício

tem gente que escreve só bebendo vinho.
tem gente que escreve só quando está em férias.
e quase todos, só quando sobra um tempo.

eu, só chego em casa quando escrevo.
várias vezes deixo o meu exercício físico de lado para piorar a dor nas costas com a má postura ao computador.
deixo a louça transbordar a pia para lavar o dia no verbo.
deixo a roupa pendurada três dias, para nenhuma palavra amarrotar.
só não abandono os meus empregos para escrever porque as crianças sabem tudo que a gente esquece e porque sem grana a gente esquece de si mesmo.

tem gente que não sabe como começar e eu não sei parar.

tem gente que não tem inspiração e eu asfixio sem a possibilidade de uma entrelinha.

tomara que eu não me contente em escrever a vida que eu deveria viver.

é da Ticcia, mas me reflete ao ponto de me causar medo

As coisas me magoam fácil. Não faz diferença se é considerado cotidiano ou esperado, certas coisas simplesmente me magoam e não consigo compreender como aquilo pode ser entendido como algo comum. É uma espécie de hipersensibilidade, como ter dentes que doem quando se come coisas muito quentes ou muito frias. Não é o frio ou o calor dos alimentos que está errado, os dentes é que são por demais sensíveis. Modos que não consigo conviver com diversas pessoas se não houver uma distância segura. E, com algumas, nem mesmo toda a distância do mundo pode assegurar alguma coisa, pelo que evito o convívio ao máximo.
Sabe, às vezes a distância é uma forma de amor.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

tentando explicar

o que eu ando escrevendo não cabe aqui, apesar de me fazer caber em mundos que eu vou descobrindo e inventando aos poucos.

é, só mede a altura da água com os dois pés ao mesmo tempo que nunca se afogou.
tem palavras que só gavetas fechadas suportam. tem entrelinhas que só duas ou três pessoas são capazes de abso(l-r)ver.

não sei eu volto pra cá, mas garanto que estou andando em direção a mim mesma.
e quando se sabe a direção, a velocidade e o tempo são apenas detalhes.

não sei se alguém sente falta do que eu escrevo, mas nada é tão presente como uma ausência sentida.

sábado, 3 de maio de 2008

do Carpi

"Não quero chegar a nenhum lugar, sou um lugar viajando."

quarta-feira, 30 de abril de 2008

nossos caminhos tortos

ontem eu fui com a minha mãe à perícia médica.
de repente ela me disse: - acho que a sala que eu vou ser atendida é aquela ali (apontando a sala), aquela só pode ser a sala do neurologista porque ali só entram pessoas tortas.
eu acho que eu não disse nada.
mas, eu queria contar pra ela como tentar ser reta me deixou torta.
eu queria contar pra ela da ternura que eu sinto pelos que ousam não seguir reto.
eu queria contar pra ela as coisas tortas que me habitam.
compartilhar com ela a paixão que eu sinto por todas as imperfeições.

às vezes ela me mostrava umas pessoas e uma coisas e insistia para eu colocar os óculos (e acompanhar o que ela via).
de repente eu disse que eu não suportavam ver mais do que eu já enxergava sem os óculos.
não sei o que ela pensou, mas chegamos - as duas - em casa sem óculos.

domingo, 27 de abril de 2008

personagens

João e Maria
Chico Buarque


Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava o rock para as matinês

Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigado a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país

Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Vem, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido

Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim?

*** De tanto não ter vocação para as opções de personagens que foram me aparecendo eu comecei a escrever e a parir quem eu realmente posso ser...

"de perto ninguém é normal"

quando eu abro o jornal eu leio o obituário e a previsão do tempo, mesmo sabendo que ela nunca se confirma.

quando eu ligo a TV eu sempre dou uma conferida na TV senado.

nas revistas eu sempre olho as roupas que eu não me dou ao luxo de comprar.

da avon eu compro coisas que eu não sei usar.

eu compro canetas e lápis e papéis de forma quase compulsiva, apesar de escrever sempre ao computador.

e o teu lado B?

Fonte: http://www.laurapeixoto.com.br

Meu lado B
Todo mundo tem um...
O meu inclui comer batatinhas Chips, com bastante gordura saturada.
O meu lado B é soturno, bizarro e brega.
Chorar na frente do dvd dos Doces Bárbaros, por exemplo, lembrando minha adolescência nessa cidade fudida,
quando a gente brincava de passar na Zona no São Cristóvão só para ver quem estava por lá....
Numa certa noite, encontramos o chevrolet do pai de uma amiga, na frente de uma das casas de luz vermelha.
Voltamos caladas e sem graça para o centro. E nunca mais fomos passear na Zona.
Ficamos com medo de encontrar nossos próprios pais.
Meu lado B inclui pensamentos suspeitos que não confesso nem no divã.
Se divã houvesse.
Meu lado B adora o Fagner quando ele canta
“Tenho um coração dividido entre a esperança e a razão. Tenho um coração, bem melhor que não tivera...”
Meu lado B adora comer com as mãos porque um xamã disse que para ter bons orgasmos
é imperioso comer só com as mãos.
Meu lado B adora lábios e todas suas conseqüências.
Meu lado B detesta coisas extremamente razoáveis e curte uma incoerência.
Meu lado B é autodestrutivo: cerra as portas para arrombar frestas...

novo cd da adriana calcanhoto - maré

..."A uma hora dessas
por onde passará seu pensamento
Por dentro da minha saia
ou pelo firmamento?"

(música "seu pensamento")

eu queria dar conta do meu pensamento e às vezes (só às vezes) saber do teu.

máscara, homem quase pelado e nenhuma fantasia

show masculino

(não é paradoxal que as mulheres que tanto lutaram para não ser objetos de cama e mesa, agora contratem homens anabolizados para se divertir?)

eu fui a uma festa de máscaras com direto a show masculino.
é, eu nunca tinha visto assim tão de perto.
se bem que eu olhei a uns bons metros de distância... e não por falta de opção, mas porque longe é o meu jeito de ir chegando perto das coisas.
antes de sair de casa, ao me olhar no espelho de máscara eu me senti numa atmosfera ney matogrosso.
a máscara me deu um nó: o que é mesmo se libertar? pôr uma máscara ou mostrar a cara?
não sei. não sei. não sei mesmo.
quando os homens começaram a entrar e as mulheres a "aproveitá-los", eu achei escatológico.
depois eu fui olhando e querendo entender.
acho depois dos 30 a gente sabe jeitos mais sensuais de tirar a roupa - da gente e dos homens.
uma história confessada, uma piada interna, um jeito de rir com o cérebro, o sentir-se escolhida numa multidão e por aí a coisa vai e nunca mais volta.
não tive vontade de colocar a mão na bunda de homem que não se deixa beijar na boca.
um homem contratado que está ali ao alcance de todas.
homem é aquele que quebra os contratos, que tem um corpo acompanhado de um cérebro, que te faz única no meio de uma multidão e te faz acompanhada na pior solidão. aquele que sabe te alcançar e não se coloca ao alcance de todas.
e o tesão da caça? show masculino é pescar num aquário...
e a máscara? sexo não é o lugar onde as máscaras caem para que as fantasias aconteçam?
não sei se as mulheres fazem por tesão, diversão, status, para entrar na roda, para ter uma foto para colocar no orkut ou para colar o pentelho do cara na agenda ou mostrar às amigas.
umas olhavam para as outras e diziam: te libera.
liberdade não seria submeter o homem ao nosso show, ao invés de nos subtermos ao show deles?
entrar num show masculino não me libera.
me libera me submeter a mim mesma.

eu nunca soube se eu chego antes ou depois nos lugares que eu habito.
mas, sempre e sempre eu me sinto tão colona, tão fora, tão estranha.
mas, assumir as minhas máscaras e tirá-las é meu jeito de ser fiel a mim mesma.
me submeter ao que acredito talvez seja a minha última crença e o meu único esforço para fugir – da morte e da vida.

quinta-feira, 24 de abril de 2008

eles sempre chegaram antes

"Lúcia Já-Vou-Indo", da autora Maria Heloísa Penteado
"Esse livro conta a história de uma lesma que era tão devagar, mas tão devagar, que ela tinha marcado uma festa na casa de uma amiga, mas só que em vez dela chegar no dia da festa, ela chegou um dia depois..." (http://www.divertudo.com.br/dicadoleitor68.htm)

Ontem eu tomei coca-cola com duas pessoas que sabem beber vinho.
Ele confidenciou que este livro ("Lúcia já-vou-indo") é o livro que ele sempre procura, mas nunca encontra.
Ela disse que se acha burra e que não confia na memória.
O livro é simples e triste, mas tem a ternura dos que andam fora do ritmo.
No caso deles, eles sempre chegaram antes, e quem chega antes também encontra a solidão.
(Talvez por isto ela se acha burra e prefere esquecer. Talvez por isto ele seja apenas visita na colônia que nasceu.)
Quem chega antes não encontra nem os restos das festas.
Quem chega antes não é compreendido e nem esperado.
Só em corridas de velocidade que quem chega antes ganha prêmio e medalha.
No atropelo disto que denominamos vida, quem chega antes é caso de psiquiatra.
Mas, quem chega antes, sabe partir (nem que for de si mesmo) e se parir antes.
Quem chega antes, se quebra, mas inaugura.
Quem chega antes, não sabe a altura do tombo e por isto não passa "agosto esperando setembro".
Quem chega antes constrói as frestas de fuga para todos aqueles que chegam depois.
Quem chega antes gera as metáforas que possibilita oxigenar a tragédia nossa de cada dia.

Eu gosto tanto deles, porque eles fazem menor o meu medo de chegar (depois) e as suas histórias me dão vontade de chegar mais perto de tudo aquilo que eu só me permito de longe. Sem contar que sabendo que eles já estão lá, eu também tenho um bom motivo pra chegar.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

saudades

eu tenho saudades da malena, da irmã noêmia, do meu vô e da minha vó.
tenho saudades de mentir dor de garganta para poder faltar aula e passar um dia todo na casa da vó.
tenho saudades de ficar feliz com o 10 da prova.
tenho saudades de olhar sessão da tarde no colo da minha mãe.
tenho saudades de ter um cachorro me esperando em casa.
tenho saudades de não ter celular.
tenho saudades do cheiro da nega-maluca que a minha mãe fazia.
tenho saudades de ir pra escola a pé com a turma da rua.
tenho saudades das músicas em fita k7 que eu gravava (bem mal) da rádio.
tenho saudades da menina que um dia eu fui.

a vida no interior - por uma colona (eu)

aqui no interior nenhum padre some no mar, ninguém joga crianças pela janela, a terra não treme, não tem malária e nem dengue. as perebas dos hospitais não são divulgadas.
no interior as pessoas morrem de mofo.
morrem de ter que olhar de frente para si próprias na falta do outro.
morrem na falta da arte que faz a tragédia de cada vida respirar.
morrem na tentativa de ser cidade grande enquanto a mentalidade encolhe.
morrem na falta de sonho, que é onde deveria brotar a vida.
morrem na perfeição de cada flor plantada, que não condiz com o sonho mutilado.
morrem para manter um sobrenome, ou achar um.
morrem para comprar o que não podem, para tentar ser o que nunca serão.
no interior tanta coisa deveria brotar, mas apodrece.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

sem perder a oportunidade

a paisagem da minha janela dos fundos também é um mar de prédios.
hoje eu estava acordando quando uma criança começou a chorar.
voei para abrir a janela, vai que lançam mais uma criança prédio abaixo e eu posso virar uma testemunha famosa.
quem sabe?

pra se matar

é comprovado que várias pessoas se suicidam ao escutarem a musquinha do programa do fantástico, na depressão costumeira que tantos e tantas passam domingo pela noite.

e que jogue a primeira pedra quem nunca passou.

ontem a oportunidade chegou antes: minutos antes de começar o fantástico, o cantor(?) daniel cantou wando no programa do faustão.

eu só não me matei porque hoje é feriado e não é sempre que se pode começar uma semana na terça.

(mas não sei não, minha consciência e minha saudades de acreditar andam me pesando mais que os meus tantos quilos...)

domingo, 20 de abril de 2008

o melhor do pior

'Quando o que você mais teme acontece, você está livre para não temer mais nada. Livre para saber que a vida não pode ser controlada e que há algo de maravilhoso nisso'

(palavras da Cris Guerra)

quinta-feira, 17 de abril de 2008

uma música

(e quem já não sonhou um amor destes?)

Skap

Zeca Baleiro


quando você pinta tinta nessa tela cinza
quando você passa doce dessa fruta passa
quando você entra mãe-benta amor aos pedaços
quando você chega nega fulô boneca de picheflor de azevi- che

você me faz parecer menos só menos sozinho
você me faz parecer menos pó menos pozinho

quando você fala bala no meu velho oeste
quando você dança lança flecha estilingue
quando você olha molha meu olho que não crê
quando você pousa mariposa morna lisao sangue encharca a camisa

quando você diz o que ninguém diz
quando você quer o que ninguém quis
quando você ousa lousa pra que eu possa ser giz
quando você arde alardeia sua teia cheia de ardis
quando você faz a minha carne triste quase feliz