sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

até o ano que vem

vou ficar até o ano que vem sem internet...

mãe

hj eu perguntei pra minha mãe pq os filhos sempre voltam de vez em quando.
ela disse que é porque as mães nunca partem.
pensei em "parto"(de parir e de quebrar)(pensei que parto tem "ar" e "ato") fiquei sem ar. tudo que é demais sempre faz falta pelo excesso. mas respeirar o fôlego da minha mãe é isso tudo que as palavras não alcançam.

propaganda para classificado amoroso

eu já explodi um microondas, mas eu nunca esqueço de comprar pão.
eu não sei cozinhar, mas eu não deixo ninguém passar fome.
eu não sei dobrar lençol com elástico, mas eu não ronco.
eu não sei comprar frutas, mas o moço da feira sempre me ajuda.
eu esqueço a luz acessa, mas eu desligo o gás no botijão.
eu demoro no banho, mas eu me visto em segundos.
eu lavo o cabelo todos os dias, mas eu nunca tive chapinha.
eu já comi uma caixa de bombom sem parar, mas também já fiz a mesma coisa com um pé de alface gigante.
eu não sei passar roupa, mas eu sei truques que deixam a roupa bem branquinha.
eu odeio despertador, mas eu nunca chego atrasada.
eu coloco comida fora, mas eu como qualquer coisa.
eu já consegui perder uma chave dentro da geladeira, mas eu não perco coisas fora de casa.
eu não sei limpar o box do banheiro, mas eu nunca esqueço de colocar papel higiênico.
eu não consigo picar cebola, mas eu comprei um mixer.
eu deixei morrer todas as plantas que eu tive, mas adoro dar flores.
eu tenho unha encravada, mas pé quente no inverno.
eu nunca uso batom, mas às vezes eu tenho "bigode" de suco.
eu adoro jogar coisas fora, mas eu não esqueço de quase nada.
eu odeio mercado, mas sou apaixonada por um boteco.
eu tenho pesadelos terríveis, mas eu sei sonhar acordada.
eu nunca ganhei nenhuma medalha, mas só porque nunca participei de um concurso de espirros.
eu não gosto de filme de ação, mas adoro os seriados de hospital.
eu não sei rir de piada boba, mas eu sei rir com o cérebro.
eu brigo até sozinha, mas eu aprendi a voltar atrás - às vezes.

viajar

amanhã eu vou viajar de ônibus.

eu adoro ônibus porque eu escuto pedaços de histórias de todas as pessoas.
eu adoro pedaços porque neles eu sou um papel sem margem.
(todos os pedaços e todas as coisas que eu nunca tive são as coisas que serão minhas pra sempre...)

eu gosto de pensar se sou eu quem vou pra frente ou se são as outras coisas que vão pra trás.

eu gosto quando chove e os pingos fazem corrida pelo vidro.

mas a metáfora da viagem me dói, ninguém chega a lugar algum e poucos chegam a si mesmos.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

ainda os cheiros

como já escrevi, é o cheiro quem me escolhe.
eu não sei meu CPF de cor, mas eu sei o cheiro de todos os acordes dos meus abismos.
vou me dar um "malbec" de presentede natal.
é um perfume que me perturba.
não sei se tenho estrutura pra perder o chão, mas sei que é na falta dele que projeto as minhas asas.

das contradições

os meus alunos amam quando eu digo para eles guardarem uma foto ou um trabalho para mostrar para as namoradas ou para os filhos que virão. eles amam quando eu digo que antes de casar sara. eles pedem para eu contar "essas" histórias de quando eles ficarão grandes.

... e pra mim eles são assim enormes justamente por serem crianças!

consciência

minha preguiça doméstica é tão gigante que se eu fosse homem eu não casava comigo.

Sarcasmo

Levanta a mão quem quando faz/diz "ho ho ho ho" sente a pança balançar.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

por falar em cu*

nem só de tomar nele* vivem os proletários, tô saindo de férias.
ano que vem eu volto.

trilha sonora de hoje, em homenagem às férias. (e pensar que "férias" começa com "fé", pra mim que sinto tantas saudades de acreditar é uma daquelas obviedades que a gente custa a perceber..., sim - tantas vezes o óbvio é a última coisa que me ocorre...)

eu sou apaixonada por água, mais ainda pelas metáforas líquidas...

Água Também é Mar

Marisa Monte

Composição: Marisa Monte/Carlinhos Brown/Arnaldo Antunes

Água também é mar
E aqui na praiatambém é margem
Já que não é urgente
Aguente e senteaguarde o temporal
Chuva tambémé água do mar lavada
No céu imagem
Há que tirar o sapatoe pisar
Com tato nesse litoral
Gire a torneira,
Perigas ver
Inunda o mundo,
o barco é você
Na distância, há de sonhar
Há de estancar
Gotas tantas não demora
Sede estranha

cu

em portugal não existe "bunda" (que é uma palavra africana).
lá, "cu" corresponde a toda a parte traseira (cu e bunda)
logo, é normal a vendedora da loja dizer assim ao vender uma roupa: agora vira para eu ver como ficou o teu cu nesta roupa. ou, ficou excelente: valoriza o teu cu.

eu nunca estive lá, mas escutei isto de mais de uma fonte.

daí, fiquei imagindo as meninas que eu conheço dizendo:
tenho cintura fina, mas cu grande.
faço ginástica pro cu não cair.
meu cu tá cheio de celulite.

meudeus: eu prefiro como é aqui, o cu da gente tem mais paz. ao menos o cu.

domingo, 16 de dezembro de 2007

saia justa de hoje

a pergunta do saia justa de hj era: o que é luxo pra ti?

a bety respondeu que luxo é poder/saber dizer "não".
a márcia disse que luxo pra ela é uma vista pro mar.
a maitê disse que luxo pra ela é silêncio.

luxo - hoje - pra mim é conseguir ir embora dos lugares que eu já deixei de habitar.

...

eu acompanho a previsão do tempo para amenizar as minhas tempestades.

sábado, 15 de dezembro de 2007

porque eu não tenho escolha, eu tbm tenho um coração de moça

do poético Carpinejar

Eu já me arrumei para um encontro que só eu havia marcado, já tomei banho por uma mulher que nem me conhecia, já mudei meus horários para puxar conversa, menti coincidências para criar empatia. Já fiei anos por uma declaração, meses por uma notícia, dias por um cumprimento. Nunca dependi de grande coisa para amar. Amava por antecipação. Amava por esmolas. Eu me apaixono por nada, por bobagem. Posso dedicar minha insônia a uma pálpebra feminina. Confundo a irritação dos olhos como uma mensagem. E tentarei explicar os gestos subseqüentes dela como uma articulação premeditada para me conquistar. Quando o abraço de uma mulher desliza para o quadril, pressinto que ela está me deixando existir. Talvez seja casualidade, mas o amor é uma casualidade. Entendo como quero. Quando o aperto da face escorregou ao pescoço, não tomarei como falta de jeito, avalio que tenho chance. Quando uma amiga telefona fora de horário, desconfio de um interesse maior. O amor não desperdiça nenhum indício. Nenhum início. Qualquer erro de entendimento é a possibilidade do amor. O amor é o erro de entendimento. Flerto com quem não foi avisada de que está flertando comigo. O amor é só esperança. A obsessão da esperança. Imagino ter dito, nunca deixo claro para continuar amando. A ausência de confirmação não me modifica. Prefiro não descobrir se o desejo é mútuo para prosseguir sonhando. Ao descobrir que não sou correspondido, é tarde para desistir. Não falo porque vivo a ansiedade de que alguém escute os meus pensamentos. Recorto frases, isolo sons, guardo expectativas. Deus não joga os rascunhos fora. Por isso, temos o amor. O amor vem por nada. Do nada. De nada.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

quem te comove?

me comoveria
alguém que evitasse umas etiquetas pelos instintos
e uns instintos pelo amor.

me comoveria
alguém que me fizesse acreditar
jantasse a minha fome
bebesse da mesma sede
me levasse para a casa que nunca deixei de habitar.

das citações

da obra " A Cura de Schopenhauer":
"...talento é quando um atirador atinge um alvo que os outros não conseguem. gênio é quando um atirador atinge um alvo que os outros não veêm..."

(sim, meu tesão - entre outros - tbm é o intelectual)

sábado, 8 de dezembro de 2007

das pessoas que eu prefiro

eu prefiro aquelas que não rezam por mim, mas aquelas que me ajudam a pecar.
eu prefiro aquelas que me gostam "apesar de" e não "porque".
eu prefiro aquelas me escabelam, e não aquelas que elogiam o meu cabelo.

eu prefiro uma mentira inteira do que uma meia verdade, um tapa bem dado do que um sorriso amarelo.

gonzaguinha:

E aprendi que se depende sempre
De tanta, muita, diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas
E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho por mais que pense estar

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

então, eu não sei brincar disto

entre os meus trilhões de defeitos, confesso um que acaba comigo no natal: eu sou barriga fria.
eu não sei fazer surpresa.
eu conto quem eu peguei no amigo secreto e pior ainda: eu conto o que eu comprei de presente. uma falência, uma vez que no dia eu sempre compro outro presente para fazer uma surpresa de verdade.
teve vezes em que eu até liguei de dentro da loja contando ao amigo secreto o que ele iria ganhar.
tipo viciada, eu fico pensando que não posso contar e vai me dando aquela vontade doida e doída.

eu quero um 2008 farto como a pança do papai noel, mas eu quero uma barriga mais quente e parecida com estas que se fazem nos programas de mexer em fotos ou nas academias.
eu quero muito.
e eu fui mais comportada que eu devia. quer papai noel acredite ou não.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

"amanhã vai de ser outro dia"

o meu melhor presente sou quem me dou.
tenho amigas que se dão calcinhas, cremes, doces, salão de beleza.
tenho amigos que se dão cds, cervejadas, cinema.
eu?
eu me dou o que eu sempre tenho e tão poucas vezes me permito.
eu me dou uma noite.
uma noite minha.
sem ninguém.
sem amanhã.
sem computador.
sem louça, sem máquina de lavar roupa, sem TV.
um banho de gueixa.
um incenso.
todos os cds que traduzem meu espírito.
nenhuma roupa.
todos os poros.
as janelas de fora fechadas.
a porta da alma aberta.
chegar em mim mesma é meu caminho preferido.

"pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir"

Eu canto para os homens terem a fina estirpe dos animais. (Alemão Ronaldo)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

então, é natal!

o vaticano comprou uma árvore de natal de 140 anos que foi cortada nos alpes italianos.

depois da desvalorização das cadeiras no céu é preciso arrumar uma nova atração para os fiéis.

(e se o papai noel tiver um mínimo de consciência ecológia, o que será do papa?)

domingo, 2 de dezembro de 2007

dos caminhos inevitáveis

Já que tantas vezes o caminho não pode ser escolhido, que ao menos tenhamos consciência de onde se encontram nossos pés para sabermos para onde projetarmos as nossas asas.

das listagens

ontem minha colega disse que manda quem pode e obedece quem precisa.

fiz a lista de quem manda em mim.

não tive coragem de publicá-la aqui.

para a dor da lucidez não tem anestesia.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

só pra ele

eu tinha tão pouca idade quando éramos vizinhos que eu acreditava que júnior fosse o nome dele.
a gente parava o trânsito da nossa rua para jogar futebol, vôlei e taco-bola.
nós tínhamos uma festa de são joão própria com casamento caipira onde todo mundo teve a oportunidade de desencalhar.
a casa dele tinha a maior piscina de plástico da nossa rua.
a família dele adotou a dalila que nasceu na minha casa, cadela como só ela sabia ser teimava em ir junto ao mercado e roubar alguma coisa muito boa e nos esperar na porta.
graçasazeus ele virou publicitário, desde aquela época ele tinha umas idéias não convencionais:
teve um dia que ele fez um concurso da mão mais forte. ele fez gelos enormes em uns quantos potes de margarina tamanho família. o concurso era pra ver qual era o idiota que conseguia segurar aquele gelo gigante por mais tempo. (detalhe: ele não participava das insanidades que inventava)
eu era tão idiota que além de vencer o concurso quis segurar o gelo até o finzinho pra mostrar como a minha mão era forte de verdade. quase perdi a mão. doeu muito. doeu mais ainda porque nem pude contar para a minha mãe e chorar, só as chineladas dela era mais fortes que a minha mão.
agora, fortes são estas lembranças boas que me fazem acreditar um tantinho no futuro.

um texto que me desfez

este texto é do ismael caneppele que escreve aqui.

minha mãe tem muitas amigas que perderam filhos. aqui no interior do rio grande do sul muitos garotos morrem quando são adolescentes. a vida é meio muito mais perigosa por aqui. caminhões correm e as bicicletas sempre precisam aprender a voar. vômitos sufocam e muitos nunca acordam. melancias e atravessar o rio ao anoitecer e muitos submergem. sem contar os que caem de pontes. prédios. torres. a vida adolescente no interior do rio grande do sul é a death. por trás dos pastos afiados o orvalho brilha de um jeito que pode ser complicado entender.minha mãe veio dizer que ela tem vontade de explicar para as amigas que perderam seus filhos que todos os filhos morreram. que todas as mães são sozinhas quando os anos acabam. que aquele filho que elas têm na memória já morreu há muito tempo. que cada ano que passa é uma morte e as crianças nunca mais voltarão para casa. que ela também perdeu os seus filhos sem que eles tenham sequer morrido.terminei de escovar os dentes. depois desse dia nunca mais acordei vivo por inteiro. nunca mais olhei para os olhos da minha mãe por inteiro. ela entende o segredo que quase ninguém conhece. somos feitos da mesma matéria. solidão e perda. mesmo quando é sem querer. mesmo quando é só de verdade.às vezes a realidade fica sem graça.

trocadilho infame

tô lendo um texto complicado sobre a relação entre o corpo e a alma.

cítrica do jeito que eu ando, não posso deixar de pensar na proximidade entre a palavra "corpo" e "porco"... e da palavra "alma" e "lama".
sem falar que o porco vive na lama (merda).

"a mudança levou tempo por ser tão veloz"

a cada notícia, a cada cena, a cada omissão e a cada ato que vão me atropelando eu sigo mais viva e com menos fé na humanidade.
como se eu tivesse 7 vidas feito a gata manhosa que eu nunca soube ser.
a cada estilhaço que me faz mais inteira eu fecho mais a tampa da minha panela.
não que eu não goste ou me interesse pelo que há fora ou dentro, além ou aquém.
mas, às vezes eu não tenho mais forças para escolher entre matar ou morrer.
"só" isto.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

terça-feira, 27 de novembro de 2007

tesoura do desejo

cortar os pulsos é antigo.
cortas as calorias é sofrido.
cortar os pneus custa caro, dói e nem dura para sempre...

mas, cortar os cabelos é o que há:
em minutos a gente vira outra.
e nem dói.
nem é a custo de fome.
nem de suor.
muito menos de lágrimas.
e não tem contra-indicação.

(eu marquei hora hoje)

como na música:
o que é que houve meu amor?
você cortou os seus cabelos?
foi a tesoura do desejo.
desejo mesmo de mudar.

clarice lispector: aquela que sabe traduzir pensamento e sentimento em palavra

depois que descobri em mim mesma como é que se pensa, nunca mais pude acreditar no pensamento dos outros.

domingo, 25 de novembro de 2007

causa e efeito

cada vez que tu me olhas assim eu fico com vontade de te enxergar com as mãos.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

o pior do natal é o presente

eu ganho cada coisa de presente.
cada coisa que eu jamais compraria.
cada coisa que eu jamais quis.
cada coisa que eu jamais vou usar.

me dá uma vergonha maior do que o saco do papai noel quando eu vejo em cada presente como as pessoas me enxergam.

cheiro

eu gosto de cheiro de comida forte, de chuva, de cabelo recém lavado, de giz de cera, de gasolina, de hortelã, de café, de cítricos, de cachaça de alambique, de chocolate, de perfume de homem, de madeira, de rio, ...

eu queria ser cheiro de praia.

eu queria ser menos cítrica e mais doce.

é o cheiro quem sempre me escolhe.

eu sei me apaixonar porque eu sou tragada.

o filme é lindo e a resenha tbm

a resenha é do cris, que escreve aqui.

Através das oliveiras
Abbas Kiarostami

Muito mais que um click. A câmera começa a filmar e já traz uma grande profundidade nos olhares. Talvez não seja um filme fácil para nós ocidentais. Mas é justamente o que o diferencia que lhe dá valor.
É um outro ritmo. Outra velocidade. Não a nossa vertigem de correr e atropelar. As coisas andam. Mas não como estamos acostumados.
E a temática é tão simples. Nada de histórias mirabolantes onde Deus desce do céu para falar diretamente com alguém, ou alguém que passa a controlar a vida através de alguns botões, viagens no tempo ou bombas atômicas. É uma história sobre vidas simples, sobre amor e temores, a morte, o dia-a-dia e, talvez, sobre Deus falando com nós, mas sem dar as caras, através de sutilezas. É uma história sobre lindas paisagens, discriminação e igualdade.
E também uma história sobre cinema.

É também, um jogo de paciência para aqueles que curtem filmes de ação. Um desafio: assista e não durma, porque nenhum prédio vai cair. Nenhum carro vai ser destruído. A destruição foi antes. O terremoto já passou. Isso, é o que vem depois. É o que acontece quando hollywood pára de filmar. Quando os heróis vão embora, ou no caso, nem chegaram.


(aqui eu conto o fim)
O fim... bom... aí é que reside toda uma outra diferença. Não é fácil. Ou, pelo contrário, é muito mais fácil. Talvez não tão aceitável.
Diferentemente de muitos filmes hollywoodianos em que depois de 5 minutos já se sabe o final (talvez não se saiba como chegará lá, mas já sabe-se o que vai acontecer), o final fica em aberto até depois do fim. Não é uma forma muito familiar ao cinema americano que é a nossa referência básica. O filme acaba, e não temos exata certeza de como acaba. Talvez porque esteja muito mais relacionado com a vida de verdade, essa que vivemos, e que não acaba depois de uma hora e meia ou duas de projeção. Talvez porque o fim é você quem faz. Talvez porque, nesse caso fosse doído descobrir que ela não gosta mesmo dele e que depois de tanta insistência a repsosta continuaria sendo o silêncio. Sim, porque se ela dissesse não, ao menos ele teria uma resposta. Ou talvez... acrescente aqui o que você quiser. Vale o que a sua imaginação mandar. E aqui reside uma dificuldade. Esse final aberto causa uma inquietação. Estamos tão acostumados a ter um fim. Um final geralmente feliz (mas ultimamente esta não é mais a regra, ainda bem). E esta falta nos causa um grande incômodo porque transfere-nos a responsabilidade de dar um destino àquele amor.
Bom, digo que o final fica em aberto, mas para mim ele é claro. Não e pronto. Ela teve todo filme para dizer sim, e não disse. E mostrou-se irredutível em sua decisão, não seria uma última caminhada que mudaria isso. Ou seria? Talvez longe das câmeras ela aceitasse casar com ele. É, pensando bem, é uma possibilidade.

mesmo que eu não jogue na loteria

eu sempre fazia a lista das coisas que eu iria comprar se ganhasse.
hj eu fiz a lista das pessoas que eu mandaria tomar no cu se eu ganhasse.
(amanhã eu vou jogar.)

eu escrevo

Eu escrevo porque eu não gosto de dirigir, mas preciso chegar. Porque não sei usar um vestido decotado, mas acho lindo. Escrevo porque o espelho me assusta. Escrevo porque eu não me gosto falando e mesmo assim eu não consigo calar a boca. Escrevo porque eu me apaixono pelo personagem do livro. Escrevo para dar vida aos amores platônicos. Escrevo pra deixar questões que eu não consigo responder em guardanapos pelos botecos por onde passo. Escrevo porque tem pessoas que me habitam sem saber. Escrevo porque a comida não mata fome. Escrevo porque não ligo a TV e não sei comentar a novela. Escrevo porque preciso fazer a memória ficar suportável. Escrevo porque sou louca por música e pelas possibilidades que o silêncio sugere. Escrevo para conseguir acreditar nas coisas que me acontecem e porque tenho saudades de muitas coisas que não aconteceram. Escrevo porque detesto telefone. Escrevo porque tenho medo de quebrar o encanto de tudo que está demasiado perto. Eu escrevo para meter a mão na merda sem feder os meus dedos. Para roubar o beijo que eu não tenho coragem. Eu escrevo porque eu cansei do colchão e preciso do chão para sentir os ossos do meu corpo. Eu escrevo para que meus dedos tenham as unhas que eu nunca tive. Escrevo porque a minha voz tranca. Eu escrevo porque eu não sei o que eu procuro, mas gosto de estar viva à procura. Eu escrevo para desaprender as letras e só usar os meus sentidos. Eu escrevo porque meu terapeuta ficou caro demais. Eu escrevo porque todas as certezas me puxaram o tapete. Eu escrevo porque as entrelinhas de tudo o que eu leio me sugam. Eu escrevo porque sem organizar a frase o meu sono não vem. Eu escrevo porque me parir nas teclas me faz mais inteira. Eu escrevo para juntar os meus cacos. Eu escrevo porque eu preciso de tradução. Escrevo porque os políticos me fazem menos humana e o voto é obrigatório. Eu escrevo porque eu persigo abismos e estranhamentos. Porque ninguém valoriza a moeda que eu cultuo. Eu escrevo porque eu sou apaixonada pela minha miopia. Eu escrevo porque as palavras riem comigo. Porque eu preciso ficar sozinha. Eu escrevo porque a Clarice disse que a vida é uma loucura que a morte faz e a minha cúmplice nisto tudo é a palavra. Escrevo porque minguo de tantas saudades de acreditar. Eu escrevo porque eu sei fugir pela palavra, mas não dela. Escrevo porque eu desisti de ter jeito.

miopia surda

me contou no tom mais absurdo do mundo que a amiga tinha comprado um aparelho auditivo e desistido dele na mesma semana.
a amiga teria dito: é muita coisa para escutar, dá muito trabalho!
eu fiquei aliviada, tenho uma cúmplice desconhecida na minha motivação de sempre esquecer os óculos.

...

ontem ainda ela me perguntou do nada:
qual é a tua meta?
antes mesmo de eu respirar de novo ela foi explicando: filhos, ganhar mais, trocar de casa, fazer uma plástica, viajar?

eu fui domrir pensando no quanto eu queria conseguir acreditar.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

muita bolsa e pouco cérebro

eu juro por qualquer coisa (menos por deus que a minha mãe me mata), mas eu escutei uma mulher dizendo bem assim pra outra:
sim, esta bolsa custou quase mil reais, mas dizem que a costura e o couro resistem a mais de duzentos anos.

agora me diz, por que alguém quer uma bolsa que dure mais de duzentos anos?

processo consciente

vou cortar os cabelos e tonalizar de vermelho. um corte espetado.
não sei se vai ficar esteticamente ok com as minhas des-medidas.
mas é "só" para ficar moderno e camuflar as minhas idéias pré-históricas.

(e depois dizem que é a consciência que faz a pessoa.
a minha consciência até hoje só fez eu me sentir mais ridícula ainda...)

terça-feira, 20 de novembro de 2007

a minha outra colega que disse

"a maioria é burra e sempre vence."
(eu chorei para não gritar)

da díficil arte de ser saudável

em cada pé de alface a gente se depara com um zoológico
comprar um abacaxi no ponto é mais raro que ganhar na loteria
cortar uma moranga é mais difícil que matar um urso.

isto tudo sem falar que preparar uma refeição saudável produz uma louça suja que só as unhas e as mãos são capazes de calcular o tamanho do estrago.

da boca da minha colega

"...eu queria ter um filho, mas o que eu faço com o pai dele depois?"

sábado, 17 de novembro de 2007

o abraço e o tapa de hoje

da boca e dos braços de Paulo Freire:
ter esperança é um ato revolucionário.

ficar em pé sozinha

quando eu era pequena eu ganhei um pinto de presente e meu irmão outro.
como naquela época eu já era uma virginiana terrível, marquei cada pinto com um símbolo diferente na cabeça.
(houve o tempo em que eu ainda acreditava que a gente pode saber quem é quem e também quem é de quem.)
os dois idiotas (dos pintos - não dos irmãos) começaram um a pinicar a cabeça do outro achando que era comida.
um ficou calejado e criou uma cicatriz dura na cabeça. nem sentia mais as pinicadas alheias.
o outro ficou com a cabeça furada e um comportamento débil.

a fotografia mais nítida que eu guardo da minha dor é eu caminhando na chuva na hora do almoço e pensando em qual dos pintos era pior eu me transformar: no idiota ou no calejado.

hoje eu fico feliz que o melhor me aconteceu: eu aprendi a ficar em pé sozinha.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

música para quando as luzes se apagam

ele pariu em palavras os ritos de todos nós.

ele fez quase música da melodia estridente da solidão que todos estão grávidos.

ele nem teve medo de se arriscar e veio assinar suas letras aqui. aqui onde tudo e todos são só cenários.

só ele foi o protagonista, e apesar disto não quis verniz, mas tirou a roupa para ser o que se é onde sempre se seguiu o modelo mofado da repetição.

alguns vão dizer que ele escreveu uma história de drogas, mas muitos saberão que as drogas sempre estiveram ali, ele com seu abraço e seu tapa, apenas teve coragem de mantê-las.

alguns vão dizer que é uma história de menino que não gosta de menina, mas muitos saberão que é a história de um homem que tem coragem de ser e que já descobriu que a vida não mata.

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

perfeição infantil

"cor de rosa é vermelho bem devagarinho"
(de um livro que eu não lembro o nome)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

nostalgia

eu tenho saudades de acreditar.

o tempo é sempre o culpado

Madrugada destas alguém pegou a minha mão no meio da noite. Acordei achando aquilo tudo muito terno. Quando consegui abrir os olhos este alguém estava olhando as horas no meu relógio de pulso. Nem quando eu fecho os olhos o monstro do tempo me dá uma trégua.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

das autonomias

...quem me dera ter a mesma vontade própria que têm os meus cabelos!

conceituando...

distância:
abismos entre as pessoas próximas.

verdade:
qualquer besteira repetida por quem você considera.

amor:
o álibi perfeito, mas difícil de mastigar e impossível de engolir inteiro.

memória:
distorção do passado para a idéia de futuro ficar suportável.

domingo, 11 de novembro de 2007

escrever-te

ao te escrever eu sempre coloco anéis.
como se as palavras fossem a continuidade dos meus dedos.

bege...

troquei de anticoncepcional.
agora é adeviso.

vou colar no braço.
é bege que nem um curativo.
(existe uma cor mais idiota que bege?
eu acho mulher de calcinha bege pior que homem de cuecão)

alguém pergunta:
machucou?
eu respondo:
não, tô transando!

(sim, eu vou colar no braço porque eu tenho uma cara de coitada sem fim... daí as pessoas podem pensar: é coitada, mas até transa)

união exata

a insegurança dele é da mesma imensidão que a falta de auto-estima dela.

declaração de amor ao pé do ouvido de uma criança de 7 anos

profe, eu gosto tão grande de ti que gosto mais de ti do que do meu cachorro!

pressão alta

quando eu era pequena a gente poupava o meu pai de quase tudo porque ele tinha pressão alta.
pressão alta: um perigo!
eu ficava pensando nas panelas de pressão que todo mundo cuidava tanto para não explodir.
eu nunca tive uma panela de pressão.
eu nunca tive coragem de chegar perto de uma panela de pressão no fogo.
hoje eu peguei uma panela de pressão na mão no súper.
meu deu uma vontade bege de ter pressão alta pra ver se o mundo me pouparia um tiquinho de suas tragédias.

verde faniquito

eu sempre li tudo em todos os lugares.
muito criança ainda descobri numa revista as dimensões do sexo masculino na hora h.
tive que tornar concreto aquilo que só o cérebro era capaz de imaginar.
peguei uma cartolina (cor verde faniquito) e reproduzi o dito cujo.
entrei num quase pânico com o tamanho do faniquito.
logo depois descobri que os bebês (os quais eu nunca reproduzi) também saiam por ali.
naquele tempo decretei que ali seria o lugar pelo qual eu só faria xixi para o resto da vida.

só uma virginiana é capaz

sonhei que na minha mesa de trabalho os lápis de cor estavam misturados com as hidrocores e levantei da cama para ajeitar.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

barriga de proletária

li estes dias que as festas infantis chiques têm comes diferentes:
hambúrguer com picanha
cachorro-quente com salsicha alemã e queijo emental.
brigadeiro com chocolate belga.

(e pensar que a minha barriga já é assim com as minhas comilaças proletárias... )

nota para um dia quase feliz

a trilha sonora desenha o rumo do meu humor

o destino da viagem foi miserável.
a sensação pós-viagem foi de abalo.
mas o taxista escutava um cd de chorinho lindo lindo lindo.

"quanto maior a sinceridade, maior o segredo"

quando eu te deixar olhar por mais de 1 segundo dentro dos meus olhos tu vais saber há quanto tu já faz morada em mim.

o caminho é este: tem flores, mas tem pedras...

Notas para uma pedagogia visual bem-humorada

1. é natural que utilizemos obras de arte para o exercício de nossadesconfiança. cultivar suspeitas pode nos salvar das verdades.

2. não se deixe enganar por tentativas de explicação de obras dearte; na maioria dos casos elas são desmentidas pelas obras mesmas.

3. não confie na autonomia "soberana" das obras de arte, pois elasdependem do desconhecido que as tornou possíveis.

4. acredite nas dúvidas, especialmente naquelas sugeridas pelasobras; algumas delas são necessárias para a superação de nosssaslimitações.

5. procure ver somente o necessário. a quantidade indiscriminada dascoisas visíveis pode reduzir em muito a qualidade das experiências.

6. não espere ver o que esperava antes de conhecer. só as obras dearte de qualidade duvidosa atendem a esta expectativa.

7. não confie em artistas que parecem querer chamar a atenção comartimanhas e "técnicas mirabolantes". estes bajuladores de públicoestão interessados apenas em mídia.

8. se um objeto artístico não parece ser arte, não o discrimineautomaticamente. só falsificadores estão preocupados em fazer algoque se "pareça com arte". artistas, por outro lado, se preocupam emfazer apenas o que deve ser feito.
9. considere sobretudo o "teor de evidência" de um objeto. por maiscompleta que uma obra de arte possa parecer, elas será sempreinsuficiente em relação àquilo que desconhecemos. se for uma obra-prima, superará até mesmo o desconhecido.
10. a espontaneidade não é um valor. é uma partida ou uma chegada. asimplicidade ou a complexidade ocorrerão apesar dela.
11. não pergunte o que os artistas que
rem dizer com suas obras.pergunte às obras. ou encontre a satisfação nos riscos que estimulam sua curiosidade.
12. a transcendência e o sorriso são invenções humanas. um outro ladodo ar é a contribuição dos artistas.
Autoria: waltercio caldas. 6ª bienal do mercosul.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

do blog da Tíccia - Megera

(a tíccia escreve - muito bem - aqui)

Libertador.

Um psicanalista me contou que é imenso o número de mulheres que se divorciam até um ano depois de perderem o pai. Segundo ele, lá no inconsciente, a mulher percebe que se conseguiu sobreviver sem o original, pode se virar bem sem a prótese. Eu sempre achei isso meio simplista, mas com um fundinho de verdade. Pois bem. Hora de eu agregar my own private theory: se você pode dizer não à protese por excelência, pode dizer não a qualquer um. Veremos se funciona na prática.

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... até tu senhora morte? quem diria...

os entendimentos de muitas coisas me habitam e eu deixo de habitar outras tantas.

afogamentos

faço hidroginástica, tudo seria perfeito se não fosse a trilha sonora da aula: música de rodeio!
no final da aula a profe me pergunta:
por que tu nunca dança as músicas coreografadas? ataca a tua labirintite?
não, ataca os meus princípios...

"eu tive medo de fechar a porta e perder algum detalhe"

qualquer pessoa normal teria ido embora.
eu fiquei.
meu coração precisava deixar de ser teimoso através do que meus olhos viam.
quando juntei os cacos dele dei-o de presente a mim mesma.
a minha melhor história é o encontro comigo mesma.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

já que o coração teima em ser de moça:

coloquei uma limpeza de pele no próximo orçamento.
(minha pele me assusta, nela está o mapa do que eu permiti e do que eu não permiti que fizessem de mim...)

marquei oftlamo
(preciso saber a quantas anda a minha miopia, preciso não mais fugir do quanto eu me nego a enxergar)

marquei gineco
(um novo, não sei o que é pior: expor as partes para um cara que você nunca viu na vida ou dizer pro seu antigo médico que faz uns 5 anos que você não faz o tal exame preventivo)

..."e toda a forma de conduta se transforma numa luta armada."

já que mudar a vida lhe exigia uma coragem e um ânimo que ela não tinha, mudou as fotos do orkut e teve uma noite sem sonhos.

o padre, nunca soube da missa nem a metade...

nunca soube o padre que aprendi a contar até 100 por falta de paciência e entendimento das missas.
quando eu encapetada em plena missa pedia por deus pra ir embora, o meu pai dizia: conta quantos anjos. conta quantas asas. quantas lâmpadas. quantos vitrais. quantos santos.
depois por conta eu evoluí: fazia estáticas dos números de pessoas em cada missa pelo média dos bancos. e também de carecas. de loiros...
hoje a minha matemática santificada se faz de pecados não confessados.